O déspota solitário de Tallinn



 
 
Parte I - Cenários ocasionais e apresentações indispensáveis.
 
Completou a última tragada e comeu o filtro. Comeu. Enquanto mastigava sentia o gosto do fumo e os vestígios do papel incomodando na língua e colando nos cantos da boca. Cuspiu e continuou andando. Noite e chuva intermitente, andava calmo como se fosse uma manhã de sol, estava imparcial às observações dos transeuntes, às sensações, às cores, estava na parte de dentro do mundo, no salão reservado da dúvida. Não se importava com as formigas que morriam pisadas e com as garças que os aviões engoliam no céu, mas em respeito ao primeiro amor que teve, acreditava nas coisas que Chico Xavier havia dito sobre essa aventura programática das almas, acreditava na reencarnação atemporal dos seres, porque era inviável fazer fim aos seus múltiplos inícios.

Tomei o carro e desci a ladeira em direção ao coffeeIN. Sou estranho aqui, assim como fui um estranho em todo lugar que estive, mas enquanto pego o café toda manhã, por alguma razão estou entre todos, um cenário sadio que permitia refletir sobre a vida e analisar as pessoas que passavam correndo e vangloriando o fluxo da pressa na frente das árvores opacas. Já faz tempo que determinei que não havia razão pra viver menos que uma vida inteira, ficar disponível e ouvinte, sem economias de si próprio e abstrações da volúpia.
Tallinn era uma cidade Estoniana adstringente, não era ácida como Washington, nem era histórica como Roma: tinha um espírito medieval que denotava uma invasão iminente dos visigodos, contava com uma brisa marítima, muitas ruas estreitas e construções de pedra. Tinha a impressão de que tudo apontava para as nuvens, as construções eram altas e terminavam pontiagudas e isso de certa maneira conseguia fazer aquele lugar ser o mais introspectivo que já pude conhecer. Então essa é minha casa, no apartamento 302 guardava treze variedades de vodka e duas garrafas de um licor local que não tive ânimo de experimentar, minha cama tinha um travesseiro, o piso era de madeira, as cortinas eram beges e a fechadura só funcionava se a porta fosse forçada pra cima antes de virar a chave. Gastei alguns minutos e todas as peças de roupas já estavam prontas para o voo das 17h.
Uma hora e quarenta minutos de distância. Chris morava em Moscou, recebia-me invariavelmente com seus cabelos escuros desalinhados, olhos naturalmente inchados e contando todos os fatos engraçados da semana enquanto andava entre pulos e rodopios ao meu lado no caminho ao seu apartamento. Apreciadora da Starbucks, uma potencial bailarina de Bolshoi, tinha fascínio pelos poemas de Drummond - os quais compreendia tanto quanto eu conseguia compreender seus gemidos sexuais em russo, depois das noites que comíamos biscoitos de nachos com cerveja nos bares da praça vermelha. Chris tinha uma vivacidade intensa, só parava de rir quando se debruçava na janela e me pedia pra cantar músicas brasileiras, fosse por eu ser um péssimo cantor ou pela pertinência do entardecer, logo se aproximava de mim afastando o violão e deitávamos no seu sofá branco, aveludado e comprido, do qual podíamos ver através da vidraça, o sol se pondo atrás dos enormes prédios vizinhos.
Os dias sempre amanheciam e nunca havia ficado mais que duas semanas em Moscou, com uma frequência ainda menor, dada a dificuldade de conseguir voos e a longa distância para se fazer de carro, viajava até Astana. O fato é que Aray foi meu convite à Ásia central, jovem e feições de uma mulher chinesa, deixou-me intrigado quando todas minhas conclusões a seu respeito estavam erradas. Intitulava-se corajosamente ateísta, enquanto sua família frequentava semanalmente a Mesquita Hazret Sultan, de fato o islamismo e suas vertentes questionáveis me deixava apreensivo naquele local, tomei conhecimento de práticas que não desejaria fazer parte, mas ainda assim tive de conhece-la. Aray tinha habilidades de montaria de sua descendência cazaque e me servia uma quantia gentil de Beshbarmak, feito com carne de ovelha, e uma tigela de Kymyz, bebida de leite de égua fermentado. Observava-me enquanto comia, sentava-se à minha frente, apoiava os braços na mesa e o rosto apoiava com as mãos, uma preguiça que não cabia em todo Cazaquistão e um impulso nômade que reafirmava sua própria origem. Falava cazaque como sua língua nativa, russo, inglês e português, mas nunca afirmou que me amava, nunca avançou do beijo ardente, por certo gostava de mim só a afirmação da partida e do retorno, talvez um sonho americano que eu não poderia ofertar ou as histórias que podíamos partilhar sem que ninguém entendesse absolutamente nada do que aleatoriamente confessávamos um ao outro.

 

(...) continua.

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