Postagens

Mostrando postagens de 2016

O déspota solitário de Tallinn

Imagem
Parte I - Cenários ocasionais e apresentações indispensáveis. Completou a última tragada e comeu o filtro. Comeu. Enquanto mastigava sentia o gosto do fumo e os vestígios do papel incomodando na língua e colando nos cantos da boca. Cuspiu e continuou andando. Noite e chuva intermitente, andava calmo como se fosse uma manhã de sol, estava imparcial às observações dos transeuntes, às sensações, às cores, estava na parte de dentro do mundo, no salão reservado da dúvida. Não se importava com as formigas que morriam pisadas e com as garças que os aviões engoliam no céu, mas em respeito ao primeiro amor que teve, acreditava nas coisas que Chico Xavier havia dito sobre essa aventura programática das almas, acreditava na reencarnação atemporal dos seres, porque era inviável fazer fim aos seus múltiplos inícios.
Tomei o carro e desci a ladeira em direção ao coffeeIN. Sou estranho aqui, assim como fui um estranho em todo lugar que estive, mas enquanto pego o café toda manhã, por alguma razão es…

-

Uma caneta sem tinta
É uma caneta.
Sem tinta
Não escreve
Não rabisca
ou pinta.

Historicamente Nú.

Preciso falar outra língua pra funcionar os dois lados do meu cérebro. De certo que tenho algum benefício com esse feito, pelo menos pediria direito o croissant com milkshake. Então pego minhas malas cheias de compromissos e trato de preenchê-las com roupas de verão. A sunga ocupa pouco espaço,  mas o que importa é a passagem, o que importa é o lugar e há os que dizem ser importante a companhia, acho que vale ter uma grana frouxa e um destino inusitado e qualquer cenário é perfeito. Vamos conversar, a gente precisa casar pra não romper os ritos e expor a honra que os grilos prezam manter. Oh meu deus, será que até ateu casaria se estivesse apaixonado? Seria católico ou protestante de uma nova religião que é o amor, quem seria seu deus? Seria uma divindade feminina com cartões de crédito e novalginas? Já tirei todo peso inútil das malas e falta minha gravata de seda e dois outros itens para sobrevivência ilimitada: o silêncio e uma parada no tempo. Ouço vozes ou será o latido do cão, q…

Vou indo, Maria

Outra pausa. E ela continua a contar das crises no seu relacionamento embrionário natimorto, esperando que um pseudo médico pudesse entregar uma cura que nem mesmo a psicologia conjugal havia descoberto.  Uma coca zero e um bolo de doce de leite, diz. Para mim uma torta fria e um expresso pequeno. Uma pausa de uma garfada. E o que aconteceu que você me chamou hoje? Questiono logo já que não tenho predileção por problemas que não posso solucionar. Precisava conversar, precisava estar perto de um amigo. Ela havia ficado dois meses em Florianópolis e agora irrompeu a paz de meu casulo para contar seus desatinos, eu previa isso e já estava arrependido de ter vindo. Estou disposto a não ouvi-la, estou apto a dispor de sua ausência. Vou levantar e antes que a borra apareça no fundo da xícara, estarei na porta. Vou indo, Maria. Se ela não fosse dele também não seria minha, se ela não fosse uma pausa, seria uma consequência intensamente amigável.

Sakurá anã branca

O tempo de ser precoce reconhece o tempo de estar em si, se eu fosse uma árvore quanto tempo eu teria? Se podarem meus galhos e tirarem a casca do meu tronco, se esquecerem meu sol, minha água, meu vento, minha sombra, meu nome, pra onde correriam as minhas raízes fincadas no solo que me forneceram? Eu conviveria com pedras, suportaria o frio da noite e pausaria a vórtice dos meus ciclos, se eu fosse uma árvore quem seriam os meus inimigos? As formigas que me caminham, os pássaros que cagam? Ah, trata-se das flores? Então toma que são tuas, posso florir precoce porque a minha explosão ainda fascina. Se eu fosse uma árvore, de que tipo eu seria?

Sal

Imagem
Então vieste sem que eu entendesse, e explicaste o que sou. Não fossem os fatos, não fosse o clima outonal, as flores e os frutos cítricos da estação, estaríamos felizmente ilhados em nosso descabimento amoroso. Não fossem os outros, não fosse minha própria incapacidade de ferir o trópico de câncer com o traço do equador, se não fossem minhas longitudes, teríamos um lugar na esperança de sermos o que desejávamos ser. Agora assombram dúvidas que outrora sequer pareciam capazes de uma existência real, puseste uma pitada de sal e ardor na minha língua para que eu provasse prazer com amor e sentisse a ânsia de viver uma vontade pura e própria. Salve-me a terapia já que desde sempre tenho criado problemas por mim mesmo. Não preciso de aliados, já que não bastariam sugestões insolúveis quando teus olhos avançam os meus por através de minhas lentes sujas e de meus argumentos inválidos. Retornaste do teu exílio enquanto perdia minha identidade e razões de ser. Tuas garrafas de vinho e os cigarr…

Licença poética.

Se essa semana não fosse santa, o que seria de nós? Se deturpassem a razão, os efeitos do chá, a calma e a euforia insatisfeita, onde estaríamos agora? Quem "compraram" tua paz, onde "perderam" tua verdade, onde "fugiram" tua saudade de ontem e repuseram tua história com ilusões à termo? Se fossemos nós, se fossemos ultrajantes de gastar nossa vida sem compasso, se descrêssemos as ordens de nossa seita imaginária e lavássemos o rito do amor com simplesmente a pureza do sentimento, será que estaríamos à salvo? Quem "questionaram" minha capacidade de viver ou "prenderam" minha sedução pelo ardor da descoberta? Eu "precisamos" de uma escolha que não denote nas suas entrelinhas o que minhas palavras não consentem dizer. Astrologicamente criaram explicações de comportamento, ensinaram ler os corpos, suas poses de poder e suas posturas de fracasso mental, mostraram o modus operandi de olhos que mentem e de bocas que sucumbem à entr…

Então acertei metade

O elevador não iria saturar minhas gorduras, então alguns lances de escada e logo que chego em casa vou ao sofá, nem tão cansado, meio vadio e um tanto revolto do dia. Tiro os óculos, repouso-os sobre o braço do sofá marrom de dois lugares, o qual pode abrigar até quatro bundas, providencio de conectar o mundo a mim e tomar consciência das notícias que o dia conseguiu esconder. O tempo passa rápido, por isso nunca sei se vai dar tempo pra fazer tudo, só que hoje, hoje resolvi que eu queria ficar inútil, queria fazer nada, coçar minhas bolas, esquecer de tudo e só lembrar amanhã quando o despertador tocar – claro, isso se eu lembrar de ligar o despertador.
Estar em qualquer lugar é escolha, liberdade é a maior valia, acho errado esse negócio de não poder escolher onde e como se quer levar a própria vida, porque a própria vida trata de fazer as escolhas se você não tomá-las pra si. Gosto desse negócio de imergir em situações malucas de pessoas desconhecidas todo dia. Ainda não descobr…