"I don't speak english for you"

Já estava indo dormir, mas precisava escrever. Havia escovado os dentes, calculado quantas horas descansaria até acordar no dia seguinte, tinha tomado meu copo de água gelada e então lembrei que não poderia deixar para amanhã aquilo que ainda poderia ser feito hoje, mesmo que hoje já quase fosse amanhã. Sentado na minha cama com as pernas esticadas, as cobertas cederam espaço a alguns parágrafos que se fazem necessários. 
 Descobri que a família é nosso bem maior, por mais diferente que ela seja, por mais que transpareça imperfeições, você nunca vai querer estar longe dela e da certeza de ser acolhido sob qualquer circunstância. Entendo agora que amo profundamente meus pais, que vivo tão plenamente esse amor que vou poder fazer meus filhos se sentirem profundamente queridos por mim. Hoje eu já entendo de negócios, da fé, de bons perfumes, de tons de pele, entendo de música e de literatura, sou diagnosticado pelos olhos das pessoas como invasor da normalidade humana, tenho a doença da vida pulsante. Confesso que estou mais calmo, menos festas, menos uísque, menos pressa de chegar e mais prazer em ser alheio, estou mais velho, mais ouvinte, pouco grave. 
O tempo é raro, a peça mais importante de todo meu cenário, se minha vida pudesse ser retratada em um teatro, colocaria um relógio bem no centro do palco, como pano de fundo pra todo amor, dor e descoberta. Por favor, sirvam-me fondue uva e conhaque que as cenas podem ser inusitadas. 
Sobre hoje não sei exatamente, foi uma angustia, foi um saber sem causa e tudo que é emoção pode ser lágrima. A paz assusta, a informação que não é clara pode não ser gema também. O que sei mesmo é que devemos cuidar para que a gota de sabedoria não sucumba nos compromissos infindáveis dos dias úteis, tenho pra mim que ainda que não queiramos o “sistema” consegue corromper nossa sensibilidade e anular nossa ternura, aos poucos se pode notar que toda ganância, de maior ou menor pureza, pode sobressair aos desejos de bem viver, e aí todo homem falha por não querer parar, por insistir em procurar no erro a solução para o próprio.
Vou brincar com a lanterna no teto do quarto, fazer lua cheia na parede. Desafinar o silêncio com minha gaita de boca chinesa. Quer dizer, estou bem, não preparado, apenas apto.

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