Cruzei as pernas e descansei a coluna no encosto da cadeira, deixei de lado meus livros. É engraçado que quando menino buscava livros pequenos com histórias atraentes, agora me vejo rodeado de obras com páginas infindas, vocabulário rebuscado, e, de certa forma, até me sinto atraído por esses títulos mais densos. Não vejo fantasmas, desconheço o rumo dessa encarnação, não toco banjo nem canto samba. É tão gostoso ser leigo de todo futuro, não saber onde as coisas findam ou por qual razão acontecem, eu ainda acredito que há um grande ensinamento em tudo isso que não posso entender e que ninguém consegue explicar. O ventilador faz um som estranho e logo serão cinco anos. Tudo surge e adormece com uma rapidez desproporcional ao tempo que suas conseqüências permanecem. Uma folha de palmeira fica bem na foto, quem sabe um lago, quem sabe uma nova cena pra essa história? Bobagem. O desapego é a mais nova tática de sobrevivência humana, talvez um reaparecimento dos ideários franceses que surgiram na revolução industrial, a pregação de uma liberdade de interferência dos fatos, dos horrores, é a pura possibilidade de escolher todo sentimento e neutralizá-lo com toda eficiência de uma abjuração quase que programada. E você me diria que tem tanta gente morrendo na África, tantos outros que se matam por qualquer significado religioso que uma tragédia possa ter, e eu aqui, uniforme, calculado em ser torto e me preocupar com o gesto do amor. Você é uma piada mesmo - diria.

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