Pelos vales verdejantes

Sou um trecho curto de final sem nexo, sem cardápio, dramaturgia musical ou desembarque previsto, então, longe de ser uma epopéia de migrações emocionais e parágrafos de tristeza, percebo que quanto mais me deixo levar por esse impulso de alegria desproporcional, mais se apresentam as disparidades que convivem no mesmo meio, que compartilham a mesma cama, que dividem o mesmo teto. Tenho uma certa tendência para o cientificismo, por isso sempre que menciono algo de cunho mais religioso costumo avisar previamente que "pode parecer ridículo", isso porque sou posto de frente para minha incapacidade de provar, de atestar indubitavelmente, e, me resguardo nessa tangente de fuga, nesse desvio da discução.
Pode até parecer ridículo, mas creio que realmente exista um parâmetro à percepção de espíritos mais ou menos evoluídos, a maneira como cada um encara a própria sina, suas dores, tramas, (des)amores, essa capacidade avaliativa diante das situações mais diversas e/ou adversas não pode ser fruto exclusivamente dos traços de personalidade. Não, minha recente conclusão não vai alterar ou acrescentar muita coisa neste escrito de feriado, simplesmente precisou ser exposta pra ganhar nitidez no meu filtro intelectual recheado de asneiras e pornografias.
A vida tem mesmo uma amargura interessante - feito cachaça alemã envelhecida de sabor amadeirado-, não arde na boca, mas queima quase que cuidadosamente todo o esôfago no caminho até o estômago. Enquanto alguns transam, outros morrem, outros colhem kiwis na Austrália, alguns se drogam na praça próxima ao rio, e alguns ceiam em família pão e mortadela. As coisas andam, correm, tudo se mantém em movimento por uma inércia energética constante, ainda que o copo caia, o carro quebre e o corpo pause: a vida nunca para.
Embarcou no ônibus, dessa vez ele não iria guiar, tampouco sabia das cores do destino ou da face do motorista. Passageiro vendo paisagem de paraíso pela janela, segue livre porque conseguiu jamais sair de nós. Que os anjos venham, que os santos desçam - dizia o padre. A esposa nada dizia, tentava manter aquele sorriso que eu não poderia entender como surgia. Dei um abraço forte, um beijo na testa e todo carinho que meus olhos conseguiam exprimir, não joguei uma rosa nem mesmo chorei. Eu celebro o amor que permanece, não a morte que leva.

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