Alucine / Místico I

Quero seguir o tom. Tum, tum, tum e uma sacudida leve na lata cheia de brita. Tom, um brinde? Bafora o charuto e me olha curto até que a fumaça toda seja levada pela brisa, ergue o copo e sorri dentes brancos de quem alterna personalidades. Tim, tim e outra sacudida leve na lata cheia de brita. O que os quarenta e dois títulos de sua estante, as apostilas e livros de matemática e biologia disseram sobre isso, Samuel? Está na sua mente, mas esperava que pudéssemos nos encontrar aqui com uma fogueira, vento soprando folhas secas e um velho fumando com cara de sábio para convencê-lo das respostas que a tanto tempo já possuía, não é? Poder não podemos entender, e tão poucos que o possuem sabem dominar, aliás, equívoco! O poder não é para ser dominado, é livre, afável, feito fera que faminta faz espetáculo para ganhar comida. Como o rio, existe e segue seu trajeto rumo ao mar, quem desejar arrozais que aproveite seu curso, que abra um rumo para uma nova veia irrigadora. É assim, você não domina o imensurável, você não bebe o mar, apenas toma um copo d'água, você colhe uma maçã na macieira e pronto, não aloje a idéia de ser a grande árvore, você apenas se alimenta do fruto. Mas, Tom, e o que foi aquilo? Não sei, nem o que foi e nem como invadir sua cabeça pra descobrir. Uma camisa amarela, calça social escura, cabelo branco e calvo no centro da cabeça, rosto de forma arredondada e sem portar-se de frente? Samuel, ele é médico? O que você foi quando outra vida pode viver? Eu sempre lhe disse que deveria manter a mente limpa e dizia isso não só para que mantivesse a face serena e o coração em paz, imaginação é o primeiro contato com algo que não se pode manter contato. Na imaginação o impalpável ganha a devida força para que tome forma e manifestação física, ali que a oração que sua mãe ensinou faz sentido, ali e em nenhum outro lugar. Existem territórios que ninguém pode explorar além de nós mesmos, e desbravar locais desconhecidos não é como superar fases biológicas: infância, adolescência e maturidade; quando você é explorador de solo desconhecido, quem define seu progresso é você mesmo, isso quer dizer, Samuel, que você nunca vai estar aquém ou além de qualquer outro. Escute o tom. Tom? É rapaz, sacuda a lata com brita! Não sou guia espiritual, não sei nem ler cartas, exceto as da Mônica, claro. Veja bem, não está escrito nas estrelas, tampouco nos livros do Paulo Coelho. Limpe a mente, deixe-se guiar. Ah, e apague a fogueira quando for embora!

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