Diálogo. Amigos.

- Interessante é saber que não nos vemos porque mudaram as coisas, mudaram as vidas. Sempre escrevi, outubro de 2006 gastei duas páginas e falei de ti, falei de todos que eram tão próximos de mim, mas que hoje nem sei se estão vivos. Não preciso saber o que tu tem ou vai ter, o que tu é ou vai ser, o que eu preciso é que saiba que foi um prazer imenso compartilhar um trecho da minha vida contigo.
- São memórias tuas, escritos que devem ficar lacrados? Tu não faz idéia de quanto tu foi importante na minha vida, cara. Se tem uma pessoa que eu sempre soube que poderia contar, eis que aí está a pessoa atrás de um monitor, sentado, com as olheiras cansadas. Talvez me encha de remorso, mas amanhã eu não poderei ir! Tu vai?
- Sei que não vai poder ir, é por isso que vim dizer isso. Nós escrevemos assim: “hoje, sábado, em uma aula de Filosofia, cinco amigos decidem se encontrar daqui a três anos. Dia nove de setembro de dois mil e nove (09/09/09), em frente à Igreja Santo Inácio de Loyola às 21 horas e 19 minutos. Para vermos o que aconteceu à vida de cada um”. Não vai poder, porque tua vida mudou, era isso que nós queríamos ter, a mudança, e queríamos ficar sabendo em três anos que as revoluções aconteceram.
- E não eram quatro amigos?
- Eram cinco mesmo, um estava escalado no grupo.
- Talvez o encontro não seja a parte mais importante, creio que tu vai, ou não? Tu falou com algum deles?
- Não, nenhum. Combinamos de não falar. Eu não sei se eu vou, talvez.
- Tem compromisso ou teme por uma decepção?
- Não, sem compromisso.
- Vai lá! Te juro que lembrei desse dia por diversas vezes.
- Também lembrei. Temo uma decepção com guarda chuva em punho.
- Na minha mente, lá no fundo, tenho a nítida imagem de um sol amarelo se pondo, não sei por qual razão, o sol se põem às 18 horas.
- É verdade, seria as 21 horas.
- Ninguém vai lembrar?
- Certamente não.
- Mas tu sabe que eu to com muita vontade de ir lá.
- Seria algo exorbitante.
- Representa alguma coisa muito forte pra mim.
- Pra mim também.
- Força uma parada pra reflexão no pedágio da solidão existencial.
- Tu evoluiu dizeres filosóficos! Caramba, três anos!
- O que se realizou? Respondo por adiantado: em primeiro lugar, o teu caráter! Sonhamos pra construir o que somos no presente, como mirar uma flecha que sempre tenta atingir o alvo, que na verdade está no infinito, mas mesmo estando no infinito o atirador procura dar o tiro mais perfeito possível. (viu meu scrapbook ultimamente?)
- Ótimo dito. Estava lá a pouco e olhe só, um scrap meu se conserva!
- Pois faça o favor de olhar a data.
- Aniversário, a maior idade.
- Ah, eu esperei tanto, mas tanto, mas tanto por esse dia, que eu esperei demais dele, demais por ele, demais dele, demais por ele!
- É, o adolescente acha que quando esse dia chegar vai acontecer uma mágica e todos os seus problemas terão sumido.
- Dai o cara acorda adulto, e vê que mágica não é algo pontual.
- Perfeito.
- Não teve festa, não teve bebida. Não posso reclamar da farta janta que ganhei aqui em Porto Alegre, mas asseguro-lhe que a coisa mais feliz que aconteceu na noite toda, foi a garota do mercado me perguntar: “hey, tu tem dezoito mesmo?” Que absurdo achar legal esfregar na cara dela que ela poderia e deveria me vender aquela porcaria de cerveja importada!
- É, senti sensações semelhantes.
- A depressão veio logo atrás, os dias ficaram todos úmidos, frios, sós, só acordei pra vida depois que me dei conta: a vida passa ali fora pela janela, falando em passar, meus colegas passaram, eu não, perdi três cadeiras na faculdade, aquilo que nunca me fora problema: minha auto-estima, ela me derrubou, ela que era na verdade uma imensa ALTA-estima, virou uma insignificante mili-micro-nano-estima. Tudo e todos eram melhores que eu em tudo, não respondia mais por mim mesmo, virei um irresponsável.
- Que doce o sabor da dor que ensina.
- Desse doce, desse mel, desse elixir sagrado, eu bebi, e sou grato.
- Aguça o paladar só depois de engolida.
- Se tu salva os históricos, faça o favor de guardar este, que quem sabe daqui a três anos possam vir a ser úteis?
- Eu ia dizer isso. Não salvo, não. Escrevo, só escrevo.
- Me desculpa pela minha infidelidade, mas não mais acompanho tuas encantadoras publicações, a quantas anda?
- Vão bem, mais idéias do que tempo para concretizá-las. Nascem, viram violetas.
- Peguei-me várias e várias vezes debruçado sobre a varanda do meu computador, olhando pra fora da janela, pra dentro das tuas palavras naquele preto, um preto vivo, sim senhor!
- Que bom sabê-lo.
- Me sinto 20 quilos mais leve.
- Me sinto só, criando companhias perfeitas e seres animados pelo momento em que o único deus sou eu, em um mundo em que faço tudo que quiser, termino em tragédia, sexo, ou riso.
- Não tens medo de entrar no mundo do delírio e de lá sair jamais, ou é justamente esse o propósito intrínseco?
- Esse o propósito. Acho que a loucura é um entendimento sublime. Como é dito por alguns que Nietzsche fez.
- Se o único alucinógeno é composto de gerúndios e particípios, presentes e futuros, adjetivos e locuções; eu concordo, mas não consentirei se te apoiares em benefícios da flora para tanto, e se só porque é natural que não faz mal, então as cobras não teriam veneno, e o mar jamais levaria vidas inocentes pra saciar sua fome de desavisados.
- Sei que é um refúgio, lugar em que me sinto eterno, e largaria toda mundanice pra viver lá, só pra ter um saber além, um tesouro que eu sei que existe, mas não imagino onde encontrar. Entende que preciso dormir agora? Eu não entendo, odeio ter de ir!
- Entende que eu tenho que estudar? Que o teria desde que começamos nossa conversa? É uma pena, mas antes que fiquemos demagogos em demasia, quem sabe seja mesmo sadia a partida?
- Que seja então. Abraço.
- Hora da recolhida, abraço.

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