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Mostrando postagens de Janeiro, 2011

I see you.

Eu te escolhi com a minha alma. Não me deixe esquecer isso. Que não haja dor, medo nem sentimento algum que anule a possibilidade infinita de ver um no outro a intenção mais pura de seu coração. Que a matéria se desfaça, que o rádio se parta, que a música termine, que o carro quebre, que o dinheiro acabe - e nem importe, que a comida falte, que a sede surja e que o universo padeça. As almas, nunca morrem. Eu não tenho igreja, não tenho cor, não tenho vícios e peço cachorro quente completo. Leio livros e sinto um prazer ainda maior em comprá-los, medito não periodicamente, ando descalço, não compro jornal pela manchete, já fiz teatro e bancos com madeira velha. Minha grafia é variável e não legível, minha visão é nítida, meus sentidos são atentos, ainda com o déficit de atenção, sofro de dores lombares com longos períodos em pé. Sou razoavelmente indeciso em assuntos cotidianos de pequena importância, mas abnego alteração de postura quando uma opinião ganha certeza em mim, meu Índice d…

We're better together

Foi com a saudade que mensurei a vontade de ter perto. Conheci meu deserto, minha fuga pouco estratégica de admitir que fazia falta teu perfume, teu riso, tua roupa combinando a minha.
Amante menos esperto e mais calhorda, acerta o pulo quando te chama, dispensa discórdia quando te ama. Sou trem de freio curto, atropelando meu sonho surdo que surdindo espia teu jeito novo de fazer ter cor e som o espetáculo de espíritos anis.
Oferece tua vergonha de dizer à língua de verbo frouxo, deixa tua substância concentrada dispersar a minha inconstância armada de afeto, e faminta de ti.

rimar romã e religião

Embora não admitisse a existência de realidades inexistentes, fui embora, estou ausente de horas futuras e observar de longe é cultivar o carinho que permanece puro. Não haviam fotos partilhadas que pudessem ser rasgadas ou outras partículas físicas que precisassem ser queimadas para neutralizar a presença do passado. Nós apenas silenciamos nossa sede de amar, desacatamos nossa vontade de transpor fronteiras estaduais. Desde o início teu jeito havia me conquistado, essa paz tão correta, esse desenho reto dos fatos e toda essa mesma invasão tênue que descansa se fez presente pra dizer que eu não deveria negar nada. Tuas verdades presumidas deprimiram o bem que me fazia. Tive vontades oprimidas e incrédulos repertórios de humor diário, por fim, não sobrevivi. Sinto muito. Falecida hipérbole humana, ganha culto semanal celebrando os momentos lhe valeram a vida.

Comentário

Não tenho rumo, não sigo rumos e não leio runas. Eu não mudo, venho da escola da escolha. Nada em mim é repentino, aparenta apenas àqueles que desconhecem o tempo das coisas. Liberdade é palavra que não cabe em frases de demagogos, é muito mais espírito que descrição, não convém que seja pretexto para repreender. Eu odeio gente que não ama, que pesa e avalia sentimentos alheios. Meu conceito pré-cozido não trata de analizar sentimentalismo ou perenidade de lembranças que não habitam meu próprio ser. Abstenho-me quando meu nada com nada faz revelia em algo.

Vanessa

Algumas pessoas nascem de modo errado, vivem de forma errada e morrem de um súbito erro certo. Eu vim do indesejo, sou filha do inesperado quando minha mãe era jovem e suas pernas arejaram no vento leve do balanço da rede. Sou crua, um cumulativo de dores sucessivas e atitudes não tomadas. Poucos sabem dos submundos do mundo, a elite inocente que conhece fome, miséria, drogas e prostituição, não quer ferir a retina presenciando em alma presente o que acontece pelos becos, bares e praças. Abandonada pelo macho que me amava, tenho filha e uso suas roupas vez ou outra, se as minhas ficam largas. Trabalho no abate de aves, sem detalhes mais interessantes a esse respeito, e o melhor é que não contemos aos clientes de nossa vida, eles não querem sabê-lo. Vanessa meu nome e vadia meu pseudônimo, superei a fase de estranhamento e retenção diante dos fatos, eufemismos aos que se agradam deles. Sexta-feira. Coloco a cadeira defronte ao bar e chamo os homens que passam. Vou pedir seu nome, onde v…

Diálogo. Indagados.

Guto diz: - morde? Nanda diz: - lambe? mata? Guto diz: - de carinho? Nanda diz: - poderia ser? Guto diz: - te agradaria? Nanda diz: - uma pergunta? Guto diz: - eu já não perguntei? Nanda diz: - perguntou? Guto diz: - não consegue ler? Nanda diz: - tá me chamando de cega ou burra? Guto diz: - entendeste assim? Nanda diz: - não foi a intenção? Guto diz: - a intenção era dizer que estava explícito, não? Nanda diz: - o que estava explícito? Guto diz: - não viu algo explícito? Nanda diz: - havia algo explícito? Guto diz: - estou perguntando porque havia, não leu? Nanda diz: - burra de novo? ¬¬ Guto diz: - quer ou não morrer de carinho? Nanda diz: - sim ou não? Guto diz: - prefere a lambida? Nanda diz: - sinceramente? Guto diz: - pode ser? Nanda diz: - posso optar pela 1ª? Guto diz: - pode optar por qualquer uma, pode responder agora? Nanda diz: - não percebeu a resposta? Guto diz: - claro, como sou idiota, não? Nanda diz: - tu tem problema, não é? Guto diz: - alguns, e você? Terminamos a brincadeira? Nanda diz: - quer ter a honra de terminar? Guto …

Diálogo. Amigos.

- Interessante é saber que não nos vemos porque mudaram as coisas, mudaram as vidas. Sempre escrevi, outubro de 2006 gastei duas páginas e falei de ti, falei de todos que eram tão próximos de mim, mas que hoje nem sei se estão vivos. Não preciso saber o que tu tem ou vai ter, o que tu é ou vai ser, o que eu preciso é que saiba que foi um prazer imenso compartilhar um trecho da minha vida contigo. - São memórias tuas, escritos que devem ficar lacrados? Tu não faz idéia de quanto tu foi importante na minha vida, cara. Se tem uma pessoa que eu sempre soube que poderia contar, eis que aí está a pessoa atrás de um monitor, sentado, com as olheiras cansadas. Talvez me encha de remorso, mas amanhã eu não poderei ir! Tu vai? - Sei que não vai poder ir, é por isso que vim dizer isso. Nós escrevemos assim: “hoje, sábado, em uma aula de Filosofia, cinco amigos decidem se encontrar daqui a três anos. Dia nove de setembro de dois mil e nove (09/09/09), em frente à Igreja Santo Inácio de Loyola às 21…

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(...) E apertou os olhos molhados de lágrimas, de costas para ela e inclinado para o abajur. – Veja, Lorena, veja... Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo... (...)
Lygia Fagundes Telles