Gastei tanta palavra por gastar

(Só o amor mensura o quão humanos realmente somos.)
Não era bem o que eu precisava ouvir. Pedinte de socorro, brados pulmonares retumbantes reverberam nas montanhas que me escondem, sufocam. A chuva precipita sobre meu cabelo e só meus olhos regam o solo seco de novembro. Surdo, mudo e debochado, quero a espada, a guerra, a sangria dos ímpios e desmedidos. Engarrafo óleo de ódio mais refinado e menos ácido que qualquer pé de oliva grega pôde produzir nos vinte séculos cristãos conhecidos pela raça lógica. Tua formalidade mesquinha aniquila toda intenção de afeto que surge em mim, não posso convencer teu silêncio do contrário, tua falta de expressão e ternura é gelo que me lança longe da presença que tanto meu corpo pede agora. Então estar próximo não é desejo, nego convites sem receios, desaprendi a ser o que jamais fui, não mais transito buscando encontros propositais, não mais enalteço todo o carinho que permanece nos indivíduos mentecaptos. Revoluções que cessem, que eu pare de querer ir além, pare em algum lugar para dizer que tudo está perfeito, me dê por satisfeito por alguns anos, enclausurem-me na velhice da alma dos homens curtos, que eu não pense, não acredite, não propague tanta coisa boa, esperança é o nome da minha cadela, vizinho de vaga-lumes estendo roupa no varal do feriado. 

____________________________

Eu era tão diferente brincando com um baldinho de plástico em um monte de areia na frente do prédio, acariciando o gato cinza que nascera na garagem, andando de bicicleta com rodinhas, indo até o mercado comprar leite, brincando na casa abandonada, construindo esconderijo na árvore, deixando a roupa suada de tanto correr, fazendo o tema de casa e decorando a tabuada. Eu era médico, eu era padre, marceneiro e muito mais músico. Uma boa gaita bordô abraçada em mim, pequena e sonora fazia fundo musical aos operários na construção da frente, meus dedos desciam com fome de som, subiam saltitantes e do ritmo eu não lembro, era meu exercício matinal nos poucos anos que tinha. Nunca quis entender muito das coisas e sempre fiz questão de esquecer com facilidade, jogava vareta enquanto me contavam que a vida descia pelas escadas, aprendi cedo que hospital existe, às vezes tiramos férias por lá, aprendi mais cedo ainda que não temos o direito de chorar quando tudo que alguém nos pede é um sorriso pra fazer o minuto ter sentido, percebi que algumas pessoas doam parte de suas histórias para o bem d'outro. Se o cemitério não fosse no caminho para a rodoviária, talvez eu não soubesse que espíritos existem, se não houvesse essa fuga-vício como alternativa pra todos, bem, eu saberia que algumas pessoas nascem predestinadas a conviverem por toda sua passagem terrena. Ah, eu era tão diferente quando queria ser como sou. Crianças, afinal.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O déspota solitário de Tallinn

Sal