Antro pocêntricos

Suportávamos-nos por pura conveniência. Companhia para contar e ser ouvido, só isso, porque raramente concordava com o que ela dizia. Por certo não deveria estar ali, sentindo o limite deste curto espaço de pensamento, sem discutir com alguém que se incomoda ou delirar com alguém que se alegra, conviver com zumbis é estágio muito avançado para mim. Tenho percebido que a última moda é ser desleixado, nada com nada e tudo fica bom, calça rasgada não importa, mas cabeça idiota faz estragos no futuro de um homem e ninguém compreende quando digo.
Shift Home, voltamos ao começo que negligência é subitem de culpa. Homens com dinheiro andam sós, afeto não se compra, porque ninguém o vende. A solidão é uma característica inerente, a vida nos dá e depois usamos segundo nosso instinto, fica ali, em um compartimento específico, é uma massa de preenchimento pouco densa. Se você não leva a vida com doses cavalares de emoções, certamente vai usar esse preenchimento pobre para tentar se auto-satisfazer de algum modo pouco ensaiado ou pelo menos evitar afinidades com suicidas criativos. Desse jeito que se descobre o nome do cronista mor da torre do tombo, indo na mesma cafeteria continuamente, vivendo literatura para passar o tempo e desviar angustias, aliás, alguém já viu alguma cafeteria que tenha mesas com uma única cadeira? Nos primeiros tempos havia quatro, eu usava uma para colocar o sobretudo, noutra a pasta, enfim, sentava e lia um jornal ou escrevia alguns contos descartáveis. Cliente assíduo por tempos ganhei uma mesa de solitário, um criado mudo bem envernizado no lado esquerdo e sempre o mesmo rapaz de pouca fala para me atender, uma das piores coisas que aqueles indivíduos poderiam ter feito é terem tornado pública toda a feroz batalha que acontecia em mim. Foi então que Vanessa ressurgiu amada até as tripas pela minha falta de discernimento, tinha os olhos de perversão e conseguiria me matar de excitação só com o timbre de sua voz sussurrada. É parece história para filme brasileiro, mas acho que nossos filmes têm essa putaria declarada, porque nossa vida de merda precisa de algumas orgias pontuais. Agora sentia sede, pois no fundo do meu poço não havia água, Vanessa revivida me deu saliva, me deu liga e fez de mim o recheio do seu bolo de baunilha. A questão é que ela não me amava mais, sentia isso de modo paralelo a forma explicita de mostrar que eu não fazia mais parte do seu mundo, era outra mulher e não mais aquela pela qual eu pretendia esculpir a unha um trono de rainha da frança, e, a pior parte é que toda a responsabilidade disso caia sobre as minhas escolhas bem feitas. Por alguma razão minha cabeça pensava que seres humanos eram como roupas: você tira a camiseta "I Love New York" e veste um terno risca de giz, depois recoloca a camiseta, pois ela te faz sentir bem, confortável. Com seres humanos difere, obvio, se voltar o lapso foi suficiente para que sua camiseta tenha sido tingida de rosa-choque e outro macho fértil a veste como se fosse a coisa mais natural do universo.
Respira, Fernando - pensava toda vez que o ciúme e irrigava de ódio meu corpo. Caminho, chateia ficar parado. Já agora corro, estou correndo na brita e cada passo faz um som que se comunica comigo, quando estamos correndo somos sozinhos, quantos poderiam nos acompanhar nesse ritmo? Anotei a frase no meu bloco porque quero desenvolver a ideia melhor. Se cair, esfolar o joelho e cortar a mão, fica! Permanece até que os outros te alcancem, grita até que estejam perto o suficiente para que te ouçam.
Livre-arbítrio seria nosso fundamento Humanista, tentei explicar mas Vanessa não quis saber dos Renascentistas medievais, partiu logo para os fatos consumados e disse que eu nunca valeria mais de meio tostão furado largado ao pobre cego que pede esmola defronte a capela. Foi então que enriqueci.

O cronista mor da torre do tombo era Fernão Lopes (1434), marco de inicio do movimento Humanista, até a volta de Sá de Miranda da Itália (1527). A dita torre era um arquivo do reino de documentos oficiais. Período marcado pela sátira de Gil Vicente, pela poesia palaciana e Vanessa sempre odiou literatura.

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