agatho démones / caco démones

Demônio, entidade maligna que assombra com cara de anjo falso e mata de assalto a esperança de tudo ser melhor para qualquer alguém. Disseram que o mal escuta musica clássica e lê Nietzsche enquanto as coisas se colidem, destroem, incidem na dor que enfatiza as premonições de amor. O mal sente tédio na igreja e sacia a sede bebendo água benta feito cachorro no recipiente da entrada, tem nojo do mendigo que mendiga tudo que poderia ser roubado, resolve a fome na óstia sagrada e conta ao padre piadas de argentinos surdos. Mas pelo funk tem afeto e pecado é seu discurso público. Incontidos risos e movimentos de sobe-desce o Demônio dança nádegas que buscam seu órgão principal de festejo: delícia. Ele dá gargalhadas, o Diabo tem dentes e não vai ao dentista, suga tanta aura boa de pouca saúde psicológica e toda realidade segue em ordem cronológica o conhecer esse outro lado macabro da sensação. Toquem as cornetas que o Encardido vem visitar, abram as janelas que a escuridão escorrega pela fresta, aproveita o deslize, tomem seus terços na mão e ponham seus joelhos no chão que há de ser necessária muita reza, muita fé e quaresma jejuada para neutralizar esse encosto tosco de pijama vermelho escuro andando pelos corredores.

Sofá de couro ele tem na sala, uma grande planta carnívora, uma enorme bíblia sagrada como mesa de centro. As plantas carnívoras são extremamente interessantes, exalam um aroma de atração e prendem na sua meleca quase sexual o inseto que não soube se conter. Viu bem onde o desejo em desenfreio te leva, o impulso, a força do instinto? Morre ali, aos poucos, e ele assiste mordiscando pimentas do reino com chá preto inglês. A cultura ocidental tem ficado cada vez mais pobre, nem sabem mais no que acreditam. Diabo tem dicionário, uma biblioteca completa de toda história e do tanto que houve de gente que prestou no mundo, lá diz que monoteísmo é substantivo masculino e sistema religioso que admite um só Deus. Diabo se sente desprezado, dói ser sempre o segundo, ser menor que outra divindade eleita para ser a suprema. Ele chora, o mal põe o rosto entre as mãos e desaba em lágrimas, porque a maldade tem para si sempre a derrota certa. Corre para janela e vai além, aquém não seria, não há limite, não há convite para o descanso, dói ser eterno também, ter todo o tempo do mundo rangendo a lembrança dos que já foram para outra dimensão mais paradisíaca. Então há um coração no demônio - os chifres não passam de invenção d'outro humano endiabrado -, pulsa e expulsa a droga coagulada nas artérias com outro cheiro na mesa empoeirada. O diabo precisa alimentar o peixinho agora: tubarões são perigosos. O Diabo precisa existir agora, ali naquele espaço que só quem arde no fogo do inferno conhece.

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