En la peluquería


No "sempre criar" fiz uma estatueta da Nossa Senhora Aparecida, do Sagrado Coração, de um Grego nu com um livro em punho e de alguns traumas em bronze na minha alma. Assim sou artista, sou traumatizada e tenho tarja preto para casos pequenos que mexem com minha calma, ficam sobre a geladeira com o guardanapo manchado de vinho. Homens não, faz tempo que não, sabe? Mesmo assim cozinho as batatas do rosto cosendo um colete pro moço chamado Armando, nova tentativa - tira-me o fôlego esse tal, constrangida mudo de cor e é vermelho o líquido que me irriga o corpo.
Agora outro enfrentamento de meus receios com as práticas normais da vida humana, todo dia tenho três no mínimo: dizer bom dia ao chefe de pouca conversa e muita conserva, almoçar e aceitar carona da vizinha siliconada dona do jardim mais bonito da rua. Tenho me saído bem, mas tenho saído pouco.
Dessa feita, sento com medo e vejo na parede penduradas tesouras de todo tipo e navalhas de bom fio, secadores de cabelo e hidratantes profundos da raiz capilar da minha alegria. Sinceramente não suporto esse ambiente, quero é distância de objetos cortantes, seringas e tudo que dói ou machuca ao menor descuido; feito o sentimento retido/contido nessa exatidão de amar fugindo do rasgo que causa.
Meu corpo ali enrijecido não quer que o fio longo fique curto, perder parte de mim, assim, por pura politicagem pelas perucas de qualidade, mas a mão dele desliza pala minha cabeça vagarosamente e há quanto tempo não era tocada dessa forma: massageia, assim, que essa resistência já é um pedido por um tanto mais de afago. Em seguida já percebo alguns maços de cabelo negro que caem ao chão devagar, os dedos hábeis que abrem e fecham e o som de metal que me corta com muita pressa e pouca pena.

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