Balada Maçã

Uma sauna com ondas sonoras constantes e ensurdecedoras, homens, mulheres, flertes e enfeites na roupa, movendo os quadris, erguendo os braços, rindo um troço forçado, olhando para o alto de luzes danceterianas, sorvendo destilados liberados até as duas horas.
Estamos em tempo bom, pessoas disputam a embriaguez, fumam suas misérias e rejeitam suas mazelas como pão velho para o burguês. Nós pagamos a diversão, e muito caro - diga-se de passagem -, trabalhamos sentados em cadeiras de estresse, operacionalizando a dinâmica de uma sociedade moderna para, enfim, usufruirmos de um lazer tom sépia. Que cante e exploda, atire-se no chão e se tiver vontade agarre, para que tanta barreira de contensão em si próprio, e essa gente ainda se gaba dizendo que a vida é uma só, estão esperando o que para aprender a gozar saúva no espírito?
Leio meus e-mails e grito aos vizinhos com uma gaita de boca fanha que "hoje ele está alegre", então todos vêm para a sacada e me ouvem até que a janela se feche, mas o espetáculo vai além, pois a lua cheia não muda de fase como eu. Noutro dia não lavo o carro e nem vou carpir o mato que cresce um pouco mais por fim de semana, acordo com o canto de todo dia do sabiá de perna quebrada e pretendo assistir ao desenho animado ou algum filme infantil. Costuro as meias com a agulha do toca-discos e busco decorar as regras do acordo ortográfico em mandarim.


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