Abra - Deturpações de um mês

Setembro. Abri um sorriso e era amor. Abri a janela e eram laranjeiras floridas com abelhas faceiras. Abri a porta e era a rua cinza, com curto raio de peneira aos homens de sucesso sem decréscimo de auto-estima. Andei e não parei na cafeteria, não comprei livros de culinária, no cinema levo recipiente para pipoca e disse que ele morreria no final. Mocinho, eu escrevi a história, como poderia não saber? Fitou-me e antes de colidir com meus olhos observou a haste marrom dos meus óculos, em silêncio deu dois passos para trás e saiu em debandada até a mão do seu pai. Abri um sorriso e era carinho. Senti a persistente dor no joelho esquerdo e preciso de um guarda-chuva. Banheiro no caminho, a urina descendo pelo mictório, cantarolando ao som que fazia na lata, suspiro mau cheiro e papel higiênico para secar a ponta do pênis? Abri um sorriso e era graça, inclusive pela mulher ter encontrado a entrada errada. A chuva encharca meu sobretudo recém comprado logo que saio do prédio. Não, eu escrevi a história, Mocinho! Sol quente de meia tarde e levo o sobretudo no braço, tempo bom e agora aceno ao prefeito que acena a qualquer um que lhe acene: não o conheço, não voto, não entendo. Que belo dia faz hoje - comento com a mulher desajeitada na parada de ônibus - roupa fedida, fios de cabelo incomodando a visão e de repente ela me estende um pente, empunhando um espelho pede que eu a penteie. Casamos. Susto. Abri suas pernas e um filho. Que foi meu moleque? - ele sorri batendo as mãozinhas. Não, eu escrevi a história, Mocinho! Solteiro e sozinho no apartamento de quatro cômodos coleciono discos de vinil, faço investimentos no Mercado Futuro e preciso de tomates para o molho. A cozinheira faz o jantar e leio o jornal no sofá, cotações, demissões no setor calçadista, colapso imobiliário, eu debato dinheiro acionário, depósito eletrônico e cheques. Sem fundo de verdade cheiro uma carreirinha de saudade fazendo apologia à drogadição da sociedade apaixonada. Que vontade de ter um caso. Vou pro quarto. Abro o cofre e fugiu meu camundongo: último companheiro. Uso o celular e peço para ajudar o comício presidencial, sou promessa na política, tenho falsidade implícita e todos me aplaudem em pé, gritam "viva a revolução!". Desconhecem o sentido do que dizem, pego meu dinheiro, entrego minha honestidade e saio com a sensação de que esqueci alguma coisa. Não, eu escrevi a história, Mocinho! Matemática inexata quando minha geometria plana dispensa contorcionismos e tenho uma vida de quadrilátero notável, 360 graus na soma dos ângulos, mas a cela é quadrada. Cadeia pra quem quebra o telhado do delegado com bolinhas de gude. Buraco na parede eu escapo de ser futuro homem do tráfico de frascos de brincadeiras de criança. Tem cupim no meu sapato, sapateiro eu te acho! Imprimiu velocidade e tropeçou na própria vontade de ser espancado: seu sado! Abro a impressora e era falta de tinta. Mocinho, história escrita! Ela não termina sem um bordado, uma renda bem grande que me renda bastante. Abro o enredo e era Setembro. Adição bioquímica do extrato de primavera.

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