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Mostrando postagens de Setembro, 2010

En la peluquería

No "sempre criar" fiz uma estatueta da Nossa Senhora Aparecida, do Sagrado Coração, de um Grego nu com um livro em punho e de alguns traumas em bronze na minha alma. Assim sou artista, sou traumatizada e tenho tarja preto para casos pequenos que mexem com minha calma, ficam sobre a geladeira com o guardanapo manchado de vinho. Homens não, faz tempo que não, sabe? Mesmo assim cozinho as batatas do rosto cosendo um colete pro moço chamado Armando, nova tentativa - tira-me o fôlego esse tal, constrangida mudo de cor e é vermelho o líquido que me irriga o corpo. Agora outro enfrentamento de meus receios com as práticas normais da vida humana, todo dia tenho três no mínimo: dizer bom dia ao chefe de pouca conversa e muita conserva, almoçar e aceitar carona da vizinha siliconada dona do jardim mais bonito da rua. Tenho me saído bem, mas tenho saído pouco. Dessa feita, sento com medo e vejo na parede penduradas tesouras de todo tipo e navalhas de bom fio, secadores de cabelo e …

Apetrecho

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Há quem prefira o silêncio e vive em sua caixa de sapato fechada na prateleira, rezando para que a poeira não cubra o coro da sua feitura: desdobramento de um argumento de Letícia. Porém vai bem à frente disso, e por xingamentos e pedidos de amigos, leitores e paixões de palmas suando frio, resolvi pagar o preço da crítica e da emoção instantânea re-ofertando os comentários dos passageiros que me passam. Comente quando quiser, o meu usufruir será farto, aos que enviam e-mail e preferem dos laços mais estreitos, cá estou abanando um olá!

Balada Maçã

Uma sauna com ondas sonoras constantes e ensurdecedoras, homens, mulheres, flertes e enfeites na roupa, movendo os quadris, erguendo os braços, rindo um troço forçado, olhando para o alto de luzes danceterianas, sorvendo destilados liberados até as duas horas. Estamos em tempo bom, pessoas disputam a embriaguez, fumam suas misérias e rejeitam suas mazelas como pão velho para o burguês. Nós pagamos a diversão, e muito caro - diga-se de passagem -, trabalhamos sentados em cadeiras de estresse, operacionalizando a dinâmica de uma sociedade moderna para, enfim, usufruirmos de um lazer tom sépia. Que cante e exploda, atire-se no chão e se tiver vontade agarre, para que tanta barreira de contensão em si próprio, e essa gente ainda se gaba dizendo que a vida é uma só, estão esperando o que para aprender a gozar saúva no espírito? Leio meus e-mails e grito aos vizinhos com uma gaita de boca fanha que "hoje ele está alegre", então todos vêm para a sacada e me ouvem até que a janela se…

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Nem tudo que se guarda, azedaria fora da geladeira.

Tuuuuuuuuuuu

À noite eu não existo, sobrevivo em silêncio. Sol caído e faço espera pra’quela que me vela acesa de tesão e dor. Imito bicho selvagem na sobra aromática da minha luminária, urgindo um compromisso de vaidade e ternura. Acordo torcicolo e psicóloga não cura ou encurta distância de bem querer alguém que existe de longe. Impotência do abraço com o reflexo de números discados atônitos na fome da voz que raramente se ouve. Ligo segunda, às vinte e duas horas palpitares da minha saudade.

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Senti medo, muito medo. Quando vi a descida íngreme e não havia freio para minha pressa de viver. Só pássaro que voa, você não, você é passageiro, não confunda o tamanho do abismo com os centímetros da sabedoria. Qual é o itinerário? Não entendi quando ele me veio, escrito bem grande em vermelho: CUIDADO. Mas como poderia ser assim, sem aviso prévio, salário a receber e contas a negar, faltando a oportunidade de morar noutro fuso horário e descobrir que um país tem céu, inferno e coxas picadas por pernilongos? Algo em mim agora está menos acordado, sem os números certos da mega-sena eu morreria pobre de lhe ter por perto, joguei cantando em latim para que a boa sorte me escutasse. Sinceramente não tenho visto mais poesia nas coisas, esvaiu-se minha inspiração e pretendo escrever novela até o fim dos meus trinta e seis próximos minutos, por puro rancor, revolta, só para provar ao mundo que não me importo com o futuro da Arca de Noé.

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Todo tempo do mundo para ti, Marina. E até logo que nunca mais te vejo nesse bonde oposto que tomo, Antônio. Oh, querida Virginia, acredita em búzios e cruzes que lagarta enorme na minha salada! Odeio gente nojenta... - ela ia dizendo e se perdeu de mim na quarta tenda de artefatos indianos. Todos os motivos do mundo para teus olhos inchados, drenagem, sacanagem e vocês só pensam nisso mesmo. Não havia pensado, mas você nem se importa com isso na verdade. Foi a vidente que disse: ajude o destino, menino! E se quiser saber estarei por lá no sábado dia vinte e cinco, pouco alcoolizado, com um sorriso comum e duas pernas dançantes em todo quadrado que houver música. Grite para mim, por favor, levarei o cardápio com opções de pratos raros e toques suaves de manjericão. Peça para que eu sugira, sussurre, induza. Não desvie o trajeto do desejo. Marina, o que você pretende afinal, dois copos e um abraço, bocejar e ir embora?

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Não sei se me escondo ou fujo milhas em qualquer direção. Sento à mesa e o manjar desce pedregulho como a muito não sentia. Todos baixam a cabeça e a mulher que senta a minha esquerda faz um gesto em negação para aquilo que o homem da outra ponta fala em provação, a minha direita a moça come com um asco atenuado deixando transparecer a vontade de estar noutro lugar que fosse mais arejado e agradável. Respiro e dou uma mordida no pão caseiro, um gole de café com leite e que habilidade extraordinária desenvolvi de fugir para outras dimensões. Os cães latem em volta da mesa e pedem um pedaço de comida, uma sobra do queijo, da mortadela, um resto de piedade e logo alguém esbraveja para que fiquem em silêncio. Ele diz mais alguma asneira bêbada de vinho branco e chama meu nome na língua enrolada, o espírito desce ao corpo e dou um salto de realidade, levanto da cadeira sorrindo e concordo com aquilo que ele havia dito levando um palito de dente até a boca. Pedem pra que eu minta: vai, elas…

Compressores Psicológicos

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Colhi a madeira boa dos armários velhos para construir uma casa de cupins celestiais. Minhas espinhas estouram contra o espelho, o qual condena a beleza que pouco tenho. Cruzo as pernas e filtro o que ouço de desacato como fuligem da fumaça. Há sucata no meu quarto, sou eu fantasiado em trapo, e folhas de papel que forram a parede de tijolos com sabedoria concreta, uma bola de cristal, a capa de ritual e compostos armazenados em meu baú celta. Espasmos quando quero que de plasma seja minha (tele)visão, pasmo faço aposta de arrombo da massa substanciosa que me sufoca. "Cancelar procura" e clico sobre, esse botão poderia existir na minha vida quando não encontro o item cobiçado. Mas dos teus respeitos eu entendo, subtenda ideia de mistério certo, impulso sobre húmus, desliza a hora, arreio firme para esse animal de pouca doma que sou, bússola para essa perdição que me provoca, lambada e coxa, lambida e fixo, bebida e arquitetura diferente de planos igualmente subconscientes.
M…

Descanso

Todas as luzes acesas para não dormir, holofotes, helicópteros, binóculos como óculos para ver o que está além dos morros, adrenalina e glândulas supra-renais regurgitando a química da reação. Som alto, carro rápido, correndo eu não capoto, aquaplanando sou lancha com motor de popa da manga, parado paro e não tenho engrenagens lubrificadas de abraços. Não há como optar por agir mais e falar menos, lamento. Perca-me se preferir, faço minhas escolhas e cumpro minhas metas - não as promessas. Suba no bonde quem quiser, homem ou mulher, mas não transo com os primeiros. Canso. Canto para não desmaiar lendo cálculos financeiros e sou branco da falta de almoço. Relatórios, siglas e rentabilidades fartas, invisto no mercado futuro dos bovinos de papel. Às nove horas sou estrada e meu caminho é para cruzar o teu, viajar com tua imagem desenhada do meu lado, tão feliz que soa indecência da minha parte. Conclui que ninguém fala meu idioma, não riem da zorra que é suas próprias vidas e permaneço …

Abra - Deturpações de um mês

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Setembro. Abri um sorriso e era amor. Abri a janela e eram laranjeiras floridas com abelhas faceiras. Abri a porta e era a rua cinza, com curto raio de peneira aos homens de sucesso sem decréscimo de auto-estima. Andei e não parei na cafeteria, não comprei livros de culinária, no cinema levo recipiente para pipoca e disse que ele morreria no final. Mocinho, eu escrevi a história, como poderia não saber? Fitou-me e antes de colidir com meus olhos observou a haste marrom dos meus óculos, em silêncio deu dois passos para trás e saiu em debandada até a mão do seu pai. Abri um sorriso e era carinho. Senti a persistente dor no joelho esquerdo e preciso de um guarda-chuva. Banheiro no caminho, a urina descendo pelo mictório, cantarolando ao som que fazia na lata, suspiro mau cheiro e papel higiênico para secar a ponta do pênis? Abri um sorriso e era graça, inclusive pela mulher ter encontrado a entrada errada. A chuva encharca meu sobretudo recém comprado logo que saio do prédio. Não, eu esc…

Praxes relacionais

Adoro o prazer e amo o que é êxtase. Ganha-se tempo com o advento da loucura compartilhada. Vem que tô pra aceite, não se prenda tanto a estes praxes relacionais. Pode ser melhor se for diferente.
- Olha aqui, não faz assim... Cola em mim devagarzinho, deixe que os lábios se entendam, não temos nada a ver com isso. Pchiii.. silencia em mim tua boca discursiva.

Homoafeto

Vai, perde o tempo que eu não perco, cria um medo que eu já tenho, faz de mim um desdenho aos ímpios cavaleiros cortejantes. Tenho em ti a esperança de um amor diferente com toda cor que o arco-íris tem.

comtodoprazer

Me cata, me acolchoa na cama, na grama, no mato. Me mata, me gama, me chama de rato!

Progéria

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Dor, angústia, desistência instigada pela doença atracada em cronismo. O olhar de brilho puro, a estatura pequena, espírito de criança e o desejo de ter um corpo imaturo na oxigenação do tempo se descompõem quando exposta a pele que enruga, os membros que atrofiam, a visão turva e audição comprometida. Jovialidade que envelhece e nem se distingue ainda o que é morte ou falta de sorte, Anomalia Genética é o nome do mostro do desenho animado e ele acaba derrotado, eu sei, sei que no fim ser raro nem sempre credita bons resultados. Não tem cura - disse o homem de branco, uma mesa grande e uma caneta no bolso. Conheci muitas pessoas que adorariam provar que ele mentiu  para mim e então vai ser a primeira vez que vou sorrir de entusiasmo pelo erro de alguém. Viagem aos Estados Unidos, hambúrguer e fritas, mas mamãe disse que toda criança precisa de limite, toda o quê? Quem é o destino fantasiado com as roupas das minhas bonecas de porcelana? Disseram-me que existe fé, mas eu só quero passe…

Rebe (pe) lados

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Discutimos sobre matar ou não. Se matar meu gato eu acabo com teu papagaio, e, ainda que fosse gato eu não acreditaria nas tuas papagaiadas! De piedade nem falamos, não há perdão para nós. Alguns hematomas de tombos, sintomas de incêndio corporal e a camareira encontrará a cama quebrada como nossos ossos depois da queda da sacada. Teu cabelo sob os puxões da minha mão, minhas costas com vergões da tua unha, o pescoço com o roxo da tua fome, no acostamento um encostamento e trânsito de entradas e saídas: selvagens em estupro-voluntário. Denunciados fomos presos portando um revolver de afeto com cinco projéteis intactos, passagem pela polícia, perícia em estalagens baratas, baratas guardadas na lata e o que aconteceu mesmo com teu gato, Gláucia?

Divino Contemporâneo

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Esses santos velhos canonizados na poeira inspiram uma vida em moldes valorosos, mas sob idéias retrogradas. Sim, por que não saímos montados nos nossos cavalos matando dragões com uma espada afiada, ou seria melhor se ficássemos nus e usássemos alguns panos de cortina enrolados frouxamente pelo corpo, um chinelo de couro, puxando mula de carga? Como assim inventaram o automóvel, só pode ser recente?! Moda, ensino superior, fazer comida, mulher trabalhar, de que lugar vocês vieram mesmo? Oh, apocalipse! Os pregadores liberais/libertinos reprimidos, anunciaram um Santo de calça jeans e All Star, guitarra dependurada no ombro, um alargador na orelha e metade do corpo tatuado. Experimentou maconha, fez milagres embriagado e freqüentou casas noturnas de bebida cara e fama duvidosa. E é do bem? Não há o que impeça.
Louvemos uma nova era, pois é tarde que a outra se encera.

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Mão com mão não reza: algema na cabeceira.
Pé com pé, problema: do corpo da cama.
Amarrada pelas quatro pontas: Retorce ou goza.

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Ela sempre vai e nunca diz tchau.  Logo volta e se demora me traz de presente a vitória  de saber que as coisas boas se repetem uma vez mais.