Lida de Campo

Aprumo o chapéu na cabeça, calça certa, justa e reta pra não atrapalhar na lida. Camisa de seus quadriculados claros e bolso esquerdo pra guardar o maço de tabaco. Pulo no estribo do potro e dou coice no vento quando assento no lombo. Cavalga longe, vento frio na cara limpa, no alto da montanha meu sol nasce e pelo descampado a geada mata o pasto novo. Já fiz a silagem do mês com o milharal de vinte hectares deste perder de vista, mas hoje em dia a máquina faz todo serviço, ao homem resta ter capricho de manter no seco e ver o tempo certo de trabalhar. Aprendi que o silo se faz trinta dias depois de a espiga estar propicia pra canjica, com o tempo a gente descobre o ponto certo de evitar o mofo no coração bom. Vivo aqui, porque todo mundo quer ser urbanizado, o campo veio dentro de mim: gosto do capim, de amansar cavalo, da minha caneca de lata batida tomando trago pra limpar o excesso de poeira do gorgomilo. Assim vai, ô se vai! Duas porradas na mesa, o povo se ergue e salta pra trás que a peixeira afiada se apresenta da guaiaca surrada do meu bisavô. Espingarda conservada detrás da porta e tem muita bala pra gastar em desalmado que me estranhe o ânimo, engatilho e tiro a ferrugem no estrondo da pólvora sedenta de morte. Me ensinaram desse jeito, preto no branco, maxilar duro e punho cerrado. Fora disso sou homem gentil, tenho duas Holandesas de muito apreço, tetas cheias de leite de qualidade, ordenho com prazer pro café (passado no pano) da manhã de todo dia. Sou colono, trapo véio e com barro, puxo escarro se não me vale um tipo da cidade, mas se for valente e de respeito levanto o chapéu, baixo a cabeça e cumprimento, estendo minha mão de calo alto e trabalho árduo, na humildade que me cabe: muito prazê, Sinhô.

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