"êra boi, êra boiada"


Pai, põe teu cancioneiro Teixeirinha pra tocar no som do carro. Devoto de Santo Antônio, corpo fechado, é um quase morto (oportunidades não faltaram), teimoso vivo conservado em vinho Niágara: "só pra saborear" - dirias, estalando a língua. Filho teu não é descrente, fique tranquilo se isto te aflige, sou moço bom que faz o bem de todo modo e cada ato meu tem o desejo de acrescer ao espírito do próximo. Prometo que hoje vou fazer o sinal da cruz antes de dormir, quem sabe até eu não reze um pouco em gratidão, acalma-te que domingo que vem estarei na missa contigo, vou sentar do teu lado e te ouvir em padre-nossos sussurrados. Mas conversa comigo, pai? Só um pouco. Pede que eu te pague o que devo com milagres, ou que interceda por ti junto ao Deus que ficou meio bandido levando estrelas pra fazer brilho no céu de junho. Destino insólito me fez alma-luz antes do tempo, não te assustes, por favor, esperança existe pra ser usada pelo pobre que não sabe da riqueza que guarda. Assim, se não for pela minha voz ou se teus olhos não enxergarem as letras pequenas disto que escrevo, peça pra que te leiam, teu moleque estudou pra ser alguém visto como um grande homem, e há quem o admire, perceberás, portanto não poupe orgulho nem lacrimeje com moderação que teu sangue percorreu todas minhas intenções. Humildade aprendi colhendo feijão na serra gaúcha, apertei toda mão de trabalho com força e respeito, sem despeito apostei meu ânimo pra transformar grão de areia em pérola na boca de ostras rudes. Fiz um colar valioso, vês? Toma para ti e leva-o aos cantos de todo mundo. Todos somos assim, esperando lapidação, sem saber a forma que tomaremos, marteladas e lascas que machucam e desenham. Eu sou artista despretensioso, nunca quis ter estilo linguístico, ser operador da escrita-contemporânea-paradigma, quis dizer o que sei e fazer "dor e amor" pra quem vivesse em mim no tempo de um texto. Toda noite eu fecho a porta e neste quarto escrevo à meia luz da luminária vermelha. Já foi a janta e a vida não é a novela que assistem na sala, a vida é essa água salgada que lava minha cara de "rapaz barba rala", vida existe dentro de nós, pulsando e dizendo coisas que mal conseguimos compreender, sentindo coisas que mal conseguimos expressar. Tive o tempo certo na tua presença, gravar teu timbre e compartilhar teu afeto. Cerveja na rodoviária, uma, duas e o que vale é estar junto. Sente à mesa, leva o palito até a boca e conta um causo novo inclinando a cadeira pra trás. Faz-me um afago em pensamento que acalmo teu peito costurado e te faço companhia quando quiser vir à eternidade.  Por hora esquece tudo, cumpre tua missão que sentei em uma nuvem macia pra assisir o grito azul dos dias.

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