Poder de Entidade


Mãe Laura é vidente, evidencia alguns belos dentes brancos sorrindo pra gente. Sabe do futuro, eu não sei, não sei nada que fuja desse segundo que ela me olha nos olhos e descobre tudo que há em mim.
- Corte as cartas - pondo-as na minha frente e esticando a toalha rendada da mesa onde nos encontrávamos.
- Ah desculpe, não trouxe tesoura hoje, Senhora.
Ela arreganha uma gargalhada e fecha a cara do nada ordenando novamente que eu cortasse o baralho de Tarô ao meio, então o fiz. Pegou-o novamente em suas mãos e como a evocar alguma energia estranha e ridícula mexia seu corpo chacoalhando suas pulseiras e me ofuscando com seus anéis de bijuteria barata. Meu coração trepidava no mesmo ritmo e minhas mãos seguravam a cadeira como se ela fosse uma bóia para um náufrago em alto mar - parou! Então, va-ga-ro-sa-men-te puxa minha história e vai colocando sobre a mesa, figuras estranhas se apresentam, certamente possuem algum significado relevante, mas permanecia em silêncio com uma calma que seus grandes olhos verdes correndo de um lado para outro não demonstravam.
- Rapaz, vá embora - enquanto se erguia da cadeira empurrando-a para trás com pressa - não tenho nada pra lhe dizer.
- Como é? E meu futuro, minha vida amorosa, meu sucesso profissional, não vai me contar nada?
- Sinto muito, não consegui ver nada, mas fique tranquilo que não vou lhe cobrar a consulta. Agora vá que tenho outros clientes pra hoje, por favor!
Dirigi-me até a porta guiado por ela e logo abandonei aquele cômodo cheio de cortinas e panos, não pude dizer tchau ou agradecer aquela cena horrenda e decepcionante. Cheguei à rua e comprei algumas margaridas na primeira floricultura que avistei. Na próxima tento com Búzios - pensei revoltado -, que há em mim que eu mesmo não possa saber? Pressagiadores são seres flutuantes que escondem os tesouros do povo. Não aceito!
Volto, duas batidas na porta e antes da terceira fazer som alguém abre. Mulher do futuro e Homem do presente frente a frente ofegando insultos que não se transformam em pronúncia. Dou um salto para dentro do consultório e escuto o estalo que o meu beijo fez na boca dela no momento em que seu corpo se desmancha e as pernas inexistem para força da gravidade. Caímos no sofá de napa da sala de espera e nos libertamos de todas as entidades malignas, encostos e maus agouros enquanto nos debatíamos em prazer e os incensos queimavam ao lado no vaso em que fora plantado um pé de arruda de plástico. O futuro dela é tão breve.

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