Dos dias que são gelados


Da minha boca sai mais fumaça que palavra, meus lábios racham e meu coração se mantém congelado. Nunca presenciei um frio tão forte, jamais usei tanta roupa como agora e meu corpo todo se contrai no reflexo de reter o mínimo de calor. Um cobertor velho faz o papel delegado a um corpo feminino, eis-me só: resultado dado aos felinos de mau amor. Uma caneca grande de chá de hortelã, quente como o fogo em si, e o banheiro é neblina pura tapando a visão da nossa nudez crua, na rua eu nem apareço para que o vento não me corte ao meio, me despedace, vento açougueiro que é. Insisto na idéia que o muco escorrendo pelos nossos narizes é o cérebro se deteriorando a baixas temperaturas, por isso ficamos mais tolos, fazemos ainda mais planos e tudo é acrescido sobre aquilo que não nos pertence. Manteiga no pão e a de cacau nos beiços a desenhar um sorriso transparente, manta enrolada no pescoço - hoje em dia ninguém se enforca com gravata -, beber chocolate quente, sempre confessando estar descontente com o corpo que se tem, decadente na rotina que não veio. Sou crente, descrente que textos curtos caibam a um livro, resante para que haja pelo menos um capítulo, e, saibam, ainda acredito que se não fossem nossos pecados (os muitos, tantos e incansáveis) tudo estaria perdido - não teríamos o que viver.

[Foto de Valdir Ludtke]

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