Brotherly love

Sentei-me ao lado dela na cama, resgatei da cabeceira um livro de poemas e li até que o dia clareasse. Ela dormira depois do terceiro poema, a quarta estrofe da página quinze, mas eu permaneci ali acariciando aquela barriga redonda e bela quase cantarolando rimas tão rimadas. Observa como o poeta desdobra o fato e muda para um rumo novo - sentia um chute de leve na palma da mão como a dizer: continue, estou ouvindo, leia mais, leia baixinho que ela não acorda! Entoava, então, com toda alma uma leitura sussurrada para aquela prole ansiosa. Bebê avesso ao sono e ao tempo que se perde com o ócio inútil quando o tempo perdido nos deixa arrependidos por não recuperá-lo mais, não admite que a vontade se reprima e que a aspirina sobressaia à biologia.  

Nasceu, cresceu e aos treze anos regou os jasmins que perfumam à noite e sentiu o corpo febril de ver coisas que talvez não existam. Aos dezesseis pegou meu carro dirigiu duas quadras e perdeu a virgindade um mês depois. Ganhou um par de botas inglesas do tio, apertadas. Aos dezoito festejou por dois dias e seus amigos quebraram o vaso cigano de sua mãe. Faz faculdade e pode rir a vontade em todo lugar que não repreendo, roupa colorida, tênis furado e me liga quatro horas da manhã porque se perdeu vindo para casa. Completou vinte e dois anos, moramos em um motor-home e toda manhã depois que o sol nasce a gente dorme. Não tem meu sangue, só meu verso, um Filho branco.

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