Cecília

"Experiência não é o que aconteceu com você,
mas o que você fez com o que aconteceu."
(Aldous Huxley)

Embatumou. Não sei, devo ter esquecido algum ingrediente ou batido pouco a massa. O que lembro é que foi nesta fase da adolescência que a mentira realmente passou a ter uma existência lógica pra mim, olhavam-me alargando o sorrido e elogiando em tom excessivo: “O bolo esta ótimo, Cecília!”. Eu sabia que não estava, mal conseguia comê-lo, mesmo assim agradecia e até hoje agradeço quando entendo qualquer coisa nessa acinzentada área da complexidade humana. De fato, fiz fisioterapia, senti-me não satisfeita e optei por ser Psicóloga, pois dizem que as pessoas que buscam essa graduação pretendem responder ou compreender suas problemáticas reprimidas. Até pode ser, mas nem sempre o terceiro grau de ensino ou a inteligência bem aprumada conseguem nos dizer algo, às vezes é necessário um confronto frio e calculista com nossos traumas, medos e afins, o que é bem mais difícil que matemática instrumental ou teorias behavioristas, aliás, ainda tenho de me convencer disso. Todos os acontecimentos posteriores àquele dia vinham acompanhados por um pensamento insistente, fossem elogios ao trabalho ou a qualquer outra coisa de desempenho admirável, a frase perseguia-me: “O bolo esta ótimo, Cecília! Está ótimo”. Então, no cumulativo dos itens e na ausência de desculpas convincentes, desacreditei todas essas histórias românticas contadas por escritores fracassados dando ênfase aos trechos de cobardia poética, amigos fiéis e plantas venenosas, agora pretendo simplesmente tatuar uma estrela no ombro esquerdo, dosar três quartos de futilidade e dar algumas gargalhadas com a ex-cunhada que me odiava até duas horas atrás. Mas será que foi o fermento? Pois já nem sei se lamento, é incômodo e vivido. 

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