Estudo acerca da Inter-subjetividade – Parte I

 Relacionamentos Afetivos

(...) “Quem reconhece realmente quão longe a nossa geração se transviou da verdadeira liberdade, da livre generosidade do Eu e Tu, deve, por força do caráter de missão de todo grande conhecimento deste gênero, exercer ele próprio – mesmo que seja o único na terra a fazê-lo – o contato direto e a este não abdicar, até que os escarnecedores se assustem e percebam na voz deste homem a voz de sua própria nostalgia reprimida”.  
(BUBER apud GOMES, 2009, p. 5).

A leitura de artigos a respeito de Martin Buber, um filósofo, escritor e pedagogo judeu de origem austríaca, certamente nos desperta à reflexão e análise de nossos relacionamentos. O filósofo faz do seu texto um estudo antropológico e na mesma linha esbarrei com a obra de Fábio de Melo que dispõe sobre “o seqüestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa”, fazendo inclusive referências ao citado estudioso austríaco, temos, então, uma mescla interessante ao unir um autor de explanação densa e mais teórica com outro contemporâneo e prático de inclinação cristã.

Não raro presenciamos relacionamentos durarem períodos cada vez menores, isto se deve, entre outros, ao fato de estarmos alimentando uma postura de tratar o próximo como objeto de nosso prazer ou como uma idealização daquilo que por toda nossa infância preencheu nosso imaginário: o príncipe invulnerável montado em seu cavalo branco e a princesa indefesa que necessita ser salva, por exemplo.
Buber define essa objetivação pelo EU-ISSO e quando esta é a essência da convivência a dois, temos a supressão de tudo aquilo que um deles poderia ser, temos um aprisionamento, uma violência que na definição de Melo “é tudo aquilo que atenta contra a pessoa e lhe causa danos” podendo ser explícita, ou neste caso, velada, aquela silenciosa que sufoca e aniquila.

O saudável e útil para nossos relacionamentos e em especial para manutenção da vida conjugal é que haja o EU-TU, em que o outro é um parceiro num acontecimento da vida independentemente de qual seja este acontecimento.

(...) “A única coisa importante é que, para cada um dos dois homens, o outro aconteça como este outro determinado; que cada um dos dois se torne consciente do outro de tal forma que precisamente por isso assuma para com ele um comportamento, que não o considere e não o trate como seu objeto mas como seu parceiro num acontecimento da vida, mesmo que seja apenas uma luta de boxe”. (BUBER apud GOMES, 2009, p. 3).

Quando há esta visualização do outro como "parceiro" entendemos que este oferece aquilo que ele ‘é’ e tudo aquilo que ele ‘pode ser’, necessitando, portanto, de liberdade para estar pleno. Com essa idéia Melo apresenta a busca de ser pessoa sob dois pilares: “dispor de si, para dispor-se aos outros”. Ele afirma que somente conhecendo todo nosso território e tomando posse de nós mesmos, podemos nos dispor aos outros e permitir que no encontro das afinidades e diferenças aprendamos ainda mais. A respeito da liberdade diz:

“Já somos livres, mas ainda não. Parece um jogo de palavras, mas não é. Trata-se de uma perspectiva muito interessante que pode ser explicitada de maneira simples a partir de uma frase: nem tudo que temos já é nosso, porque carece ser conhecido e conquistado. (...) Liberdade é semelhante a um talento. É um elemento constitutivo humano desencadeado à medida que o ser humano se esmera no processo de torná-lo real”. (MELO, 2008, p. 81)

Isso quer dizer que a liberdade apesar de ser característica inerente ao ser - humano precisa ser desbravada para, posteriormente, ser exercitada. É um processo de conquista em que um auxilia ao outro ir um tanto além, no âmbito amoroso isto fica nítido, pois caso não aconteça dessa forma se estrutura a relação supressiva de objetivação.

 “A experiência humana nos ensina que o amor condensa o poder de fazer o outro ser livre. (...) Amar é assumir a responsabilidade de viabilizar o florescimento da liberdade fundamental que há no outro. (...) O amor verdadeiro é o amor que faz ser livre, que faz ir além, porque não ama para reter, mas para promover. Amor e liberdade são duas vigas de sustentação para qualquer relação que pretenda ser respeitosa. (...) Se quiser nos amar, se quiser fazer parte da nossa vida, terá que ter diante dos olhos o que somos, o que ainda podemos ser, e não o que ele gostaria que fôssemos. O amor só acontece quando deixamos de imaginar. Só a realidade autentica o amor, demonstra sua verdade”. (MELO, 2008, p. 87 e 88)

Há uma proporção direta entre a verdade que cada um põe no relacionamento e a sinceridade no sentimento que declaram. O amor não acontece no EU ou no TU, ele acontece na terceira pessoa de existência própria que desse encontro se estabelece: NÓS. Buber também explica que não devemos confundir os fenômenos inter-subjetivos com os fenômenos psíquicos, posto que os últimos residem na alma da pessoa, enquanto os primeiros acontecem no entre da relação:

(...) “Os sentimentos, nós os possuímos, o amor acontece. Os sentimentos residem no homem mas o homem habita em seu amor. Isto não é simples metáfora mas a realidade. O amor não está ligado ao EU de tal modo que o TU fosse considerado um conteúdo, um objeto: ele se realiza, entre (grifei) o EU e o TU”. (BUBER apud GOMES, 2009, p. 4)

É exatamente nesse ponto que o filósofo traz à tona uma problemática referente a sua teoria: a dualidade entre o Ser e Parecer. Para ele existem dois comportamentos que se misturam, um se refere aquilo que efetivamente somos e o outro do que queremos parecer a partir de uma imagem individualizada. Normalmente os primeiros tendem a ser mais espontâneos enquanto os seguintes alternam comportamentos artificiais no afã de proporcionar impressões diferentes, importa para estes a concepção do expectador. Pedro Braga Gomes cita uma exemplificação de Buber (1982) da situação apresentada: “duas pessoas conversando, Pedro e Paulo, temos as imagens que querem transmitir um ao outro, acrescidas às imagens que cada um faz do outro, somadas as imagens que cada um tem de si mesmo. Ao todo temos seis imagens na conversação dos dois e nenhum espaço para a legitimidade do inter-humano”. O objetivo do filósofo é demonstrar que só a verdade de personalidade realiza o ser - humano, abolindo as amarras do discurso moral.
Não suficiente, estamos suscetíveis a cometer outro erro que dá margem a lidarmos com pessoas que apenas parecem: o de querer ver o que não é. Imaginamos nosso par perfeito, nosso casamento dos sonhos, imaginamos insaciavelmente e até é benéfico quando este imaginar não nos atira para uma realidade ilusória.
                                                                                                                                
“O que temos diante de nós é uma contradição da existência. Não somos perfeitos, mas queremos realidades perfeitas. (...) As pessoas no afã de encontrarem a pessoa ideal, a pessoa perfeita, começam a imaginar. Olham mas não vêm, porque estão motivadas a enxergar só o que estão imaginando. Esbarram mas não encontram, porque o encontro requer autenticidade. (...) Aquele que imagina retira do imaginado o direito de ser o que é. Imaginar é um jeito de negar a realidade”. (MELO, 2008, p. 115 e 116)

A convivência revela os tesouros mais profundos das pessoas, porque o ser - humano não é feito de superfície, aliás, nela nada se encontra de contundente. Os anseios, as vontades e as indagações mais perturbadoras estão em profundidade, precisamos penetrar no outro e mostrar-lhe o que vemos. Além disso, devemos permitir reciprocidade nesse processo, oferecendo e dando aceitação ao mais inusitado que possa se apresentar. Ir além pode nos propiciar surpresas mais agradáveis do que as que nossa imaginação criara.

(...) “Nós sabemos quem somos, mas os outros nos imaginam. (...) Não existe pessoa “ideal”, mas sim pessoa “certa”. A pessoa certa condensa defeitos e qualidades, e a somatória de tudo resulta uma realidade pela qual o outro se apaixona”. (MELO, 2008, p. 120)

Não temos um nível extraordinário de conhecimentos antropológicos e filosóficos, somos seres viventes e dessa vivência pretendemos extrair e aprimorar. O amor não exige manual nem qualquer atributo excepcional de capacidade física ou intelectual, é um pontilhado livre, uma dança solta em que os corpos se distanciam e aproximam sempre descobrindo um acorde novo na canção dançada.
Claro que alguns relacionamentos afetivos terminam, não há problema nisso, somos falhos e às vezes precisamos mais de uma tentativa para acertar, isto não é pretexto para solidão e autoflagelo e sim para lapidarmos nossos excessos e aflorar nossa sensibilidade. Ser romântico e amar já perderam – se é que tiveram algum dia – esse sentido mitológico de conto de fadas: é muito mais estar entregue, é nunca estar pronto pra tudo que pode acontecer. EU-TU.


Referências:
GOMES, Pedro Braga. A Filosofia do Relacionamento. Out 2009/Jan 2010. 10 f. Periódico de Divulgação Científica da FALS – Faculdade de Educação do Litoral Sul Paulista, Ano III - Nº VI (ISSN 1982-646X). Disponível em: <http://www.cidadesp.edu.br/old/mestrado_educacao/artigos/discentes/a_filosofia_do_relacionamento_23_11_09.pdf>. Acesso em: 13 de março de 2010.

MELO, Fábio de. Quem me roubou de mim? O Seqüestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa. 42ª Ed. São Paulo/SP: Editora Canção Nova, 2008.

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