Novo



É novo, não? Parece-me que muda pouca coisa, certamente temos a oportunidade de criar um ponto de partida para alcançar nossas metas ou desejos, mas objetivamente é apenas o movimento contínuo do tempo que nunca embarca passageiros atrasados. A numerologia vai despejando previsões de como um ano ímpar regerá a vida das pessoas e minha irmã até comprou uma daquelas revistas de zodíaco, prevêem uma convivência familiar tranqüila, vou ganhar alguns reais a mais – talvez do aumento do salário mínimo – e colecionar desastres amorosos. Independente de serem presságios válidos ou não, terei de buscar na labuta diária os índices de aproveitamento positivos, indícios de sucesso e esbanjar dos sorrisos felizes.


Faltavam alguns minutos para que o nove se tornasse dez, na televisão mostravam festejos pelos quatro cantos do Brasil: bêbados, abraços, beijos, toneladas de fogos de artifício, luzes e milhões de pessoas aglomeradas na esperança renovada de que tudo será melhor. Eu sentado em uma cadeira de palha sem muito conforto, chegada à mesa da janta que já fora servida, dentro de um cômodo com paredes de madeira e de no máximo quatro metros quadrados. Não era Nova York, Bahia, Rio de Janeiro, uma praia ou a cobertura de um prédio de luxo, nada muito alta classe; o que eu tinha era um pai que dormia ali próximo de mim, um sobrevivente dessas batalhas que valem a vida, pura teimosia de permanecer carnal, de ver com aqueles olhos que a terra ainda não comera, os filhos crescerem, a chuva cair, as safras de vinho e os gritos do mundo.
Eu estava só naqueles últimos minutos, não havia dado os berros habituais da minha insanidade comedida nem estourado o espumante como em todos os anos anteriores. Abri a porta e a lua cheia era um pingente de diamante no busto da noite, algumas nuvens escuras davam ares de magia e a TV saiu fora do ar enquanto os fogos faziam estardalhaços pelo céu. Em silêncio esbanjei um sorriso bem grande no rosto. Feliz ano novo!

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