Era uma vez.

Caçapava

"Eu sou cada segundo da minha vida, uma história presente."

Interior, bem escondido no meio das árvores que fazem cócegas no céu. A ponte sobrevive arqueada sobre o riacho, de tijolos firmes nessa função de tornar travessias possíveis, de ser o vínculo das coisas naturalmente distantes. Uma pequena cachoeira de água límpida e gelada, sento-me nas pedras deixando os pés submersos balançando naquele movimento infinito da correnteza. Mário Quintana afirmava haver tristeza nos rios por não poderem parar, são contínuos, não retornam para os lugares por onde passam. Eu paro, retrocedo, relembro e revivo. Estou quieta, imóvel, o ar é mais leve e meus membros amolecem. Aqui eu cresci, aqui tive meu primeiro amor e chorei no quarto com a porta trancada quando ele acabou, fui castigada pelos meus pais e me escondi no mato até que a raiva passasse. Este lugar é meu templo e hoje sou mulher, e sou bonita, sei seduzir, convencer, trabalho e faço essas coisas normais e mesquinhas que obrigam o tempo passar mais depressa. Lamento por isso, pois preciso construir meu castelo de emoções, quero o homem certo, ter um cachorro, sair a passeio nos finais de semana, cantar em voz alta no carro, formar-me com honras e ter esse negócio de felicidade que a gente não encontra na quitanda. Lembro do sol refletindo nas folhas cheias de orvalho e do cheiro de café passado da minha mãe que invadia toda casa enquanto eu arrumava as coisas, porque estudar era meu compromisso e brincar minha ambição. Suspiro e engulo uma vontade que poderia ser de chorar, acho que não, saudades talvez. Sei que permanece a essência em meu âmago, cultivo-a carinhosamente, a fim de que transpareça nos meus olhos. Valorizo os sorrisos sinceros que brotam da minha alma inspirados naquela que se divertia de esconde-esconde por aqui. Esse cantinho de mundo tem um quê de simplicidade único que riqueza alguma reproduziria, amigos, amores, sabores de aventura. Em tupi-guarani se denomina “Clareira na Mata”, cinqüenta mil homens, mulheres e crianças e uma infinidade de paisagens bonitas. As cavernas fazem caretas e o povo conta de espíritos que apagam as velas, dos tesouros escondidos pelos jesuítas e a igreja ainda está no meio da cidade com seus sinos centenários a anunciar chegadas e partidas.


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