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Mostrando postagens de Dezembro, 2009

Elisão

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Pensamentos pobres com retoques nobres. Profissão de esculpir atos lícitos e cenas pudicas. Exercício de acumular pedidos, promessas, Dores e visões do porvir. Cumpridos e compridos. No sótão enferrujam as algemas do meu sentir Guardo banhado de pó tudo que jaz repousando, Regado de ódio um tanto e outro, ainda amando. Amasso-me na cadeira e o suor salgado e quente Desvia do controle dos meus poros Escore e lava meu caráter visigodo. Enternecido, lanço mão de alguns truques mágicos Angariando ouro, prata e adeptos causais de precipícios. Sorrio maligno.

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"Escrever é a única profissão em que ninguém é considerado ridículo se não ganhar dinheiro."
(Jules Renard)

Aracno

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Um tapete circular alaranjado, deitado com os braços sob a cabeça olhando para o alto. A pequena aranha sobe e desce acompanhando o movimento do meu diafragma que comprime e relaxa os pulmões. Quando alacançava uma altura suficiente despendia do alto com velocidade girando verticalmente na própria teia, parecia brincar, atriz circense. Claro, falta-lhe alguns apetrechos e enfeites pelo corpo, entretanto certamente possui grande habilidade. Mas o que aconteceu? O aracnídeo parou na metade do trajeto, aparentemente dispensando o exercício de tecer para me observar por alguns instantes. Também lê pensamentos? Aranhazinha audaciosa! Mostro-lhe a língua e ela sobe exasperadamente sua teia até o orifício de origem, quer abrigo das anormalidades do mundo. Dou uma gargalhada enquanto agito o inseticida. 

Era uma vez.

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"Eu sou cada segundo da minha vida, uma história presente."

Interior, bem escondido no meio das árvores que fazem cócegas no céu. A ponte sobrevive arqueada sobre o riacho, de tijolos firmes nessa função de tornar travessias possíveis, de ser o vínculo das coisas naturalmente distantes. Uma pequena cachoeira de água límpida e gelada, sento-me nas pedras deixando os pés submersos balançando naquele movimento infinito da correnteza. Mário Quintana afirmava haver tristeza nos rios por não poderem parar, são contínuos, não retornam para os lugares por onde passam. Eu paro, retrocedo, relembro e revivo. Estou quieta, imóvel, o ar é mais leve e meus membros amolecem. Aqui eu cresci, aqui tive meu primeiro amor e chorei no quarto com a porta trancada quando ele acabou, fui castigada pelos meus pais e me escondi no mato até que a raiva passasse. Este lugar é meu templo e hoje sou mulher, e sou bonita, sei seduzir, convencer, trabalho e faço essas coisas normais e mesquinhas que obri…