Uma tal de Lúcia.

Barbara V. Murakawa

A oportunidade perdida, volta jamais. As sensações vividas, repetem-se nunca. Travo com a idade uma batalha da qual certamente saio derrotada. Cada flanco é cicatriz sarada com a acidez da hora ida. “São marcas de expressão”, diziam; acenava positivamente com a cabeça enquanto tateava a pele que tanto mais se enrugava com qualquer manifestação de afeto ou rancor. Percebo que aos poucos fico mais próxima da terra, minha coluna se curva de tal forma que é como se saíssem braços do solo e me puxassem pela cabeça na sua direção, o que é, notadamente, uma cobardia com alguém que mal se mantém em pé.

Passo o dia na varanda vendo o movimento dos automóveis, ônibus e caminhões abarrotados da pressa rotineira. Pisco os olhos lentamente e meu maior compromisso é não perder a hora do remédio ou a reza vespertina do terço na televisão. Se a noite foi conturbada deixo o sono me arrematar e durmo sentada ali mesmo. Algumas vezes vêem visitas tomar um chimarrão e conversar qualquer coisa. Gosto de ver que todo mundo possui algo pra contar, se me permitirem até dou um aparte, senão apenas ouço. Numa dessas, um dos conhecidos se revirou na cadeira, mirou os olhos na casinha do cachorro ao longe e se pôs na narrativa do falecimento de seu pai.

“Bêbado que é bêbado, quando não bebe é porque vai morrer. Enfim, era daquele tipo que bebia muito, até se azular, e, como não podia ser diferente, possuía um amigo de trago. Morreu por causa de uma brincadeira. O tal amigo o chamou pra farrear e logo que um copo com qualquer coisa alcoólica aparecera, o amigo lhe ofereceu. Recusou: “hoje não vou beber..”. Lá, cá e gargalhadas mil o amigo desferiu um tapa de pirraça nele. Pendeu pra trás e a cabeça bateu na parede. Ato-fato: morreu. Estranho que antes de sair de casa ele foi até sua esposa anunciando que o mundo naquele dia terminaria, e, além disso, ela não precisaria lhe esperar para o almoço.”

Finda a história desceu a névoa do silêncio que só se quebrou com o ronco do chimarrão. Gostaria de saber onde ficam os finais felizes, se escondem de todos que não são personagens de contos de fada, é propriedade de inocentes, é dádiva de artistas ou presente da insanidade? O que se ganha com a Idade? Um final. Feliz?

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