Paisagens, pincéis e amores coloridos



Gosto desses tempos em que os Ipês se carregam de flores e deixam o chão colorido. Prefiro os amarelos, pois os rosados parecem falsos. Tenho cabelo verde, que mais parece um capacete de piloto automobilístico. Dizem que sou querido. Parece mentira, mas não brigo. Se há uma coisa que eu não sou é revoltado. Lembro que na escola sempre apanhava dos outros meninos, quieto voltava ao meu isolamento prático. Sou calmo, muito. Consegui levar sete meses pra terminar minha última tela, dava três pinceladas por dia e confesso que foi a pior que meus pincéis acariciaram para dar vida. Aprendi que se deve ter as experiências no devido espaço de tempo e deixo que elas aconteçam sem demasiados esforços ou metas definidas. Existem lá as exceções, mas odeio ser como as pessoas que fazem questão de expor as brechas de suas teorias com ares de soberba. Sou simples e diferente. Às vezes saio do trabalho, passo no supermercado e compro um saco daqueles salgadinhos que são capazes de mudar nosso DNA, tamanha quantidade de compostos químicos, vou pra casa e me delicio enquanto escuto meus CDs da varanda. Assim as horas passam, chega a noite e espero o sono de pijama brincando com o jogo de dardos que me presentearam no natal retrasado. “Sua profissão, Senhor?” – sempre me pedem, digo Pintor e outro dia me ligaram pedindo quanto cobrava para passar uma tinta na cerca. Expliquei, não me entenderam nem contrataram, ótimo, aliás. O fato é que as cores são minhas armas. Tenho um arsenal interminável que deixa minha vida mais segura e colorida. Não queria falar nisso, mas ontem morreu meu cachorro. Urinou no pé de Jabuticaba, correu e quando vi o peludinho branco ficou vermelho esmagado em plena avenida. O motorista nem olhou pra trás. Engoli a tristeza. Fiquei duas horas debaixo do chuveiro e inundei de espuma até a lavanderia. Minha prima costuma dizer que nada é ruim depois de um longo banho, tentei. Dormi com sedativos naturais. Ainda no outro dia tive de ouvir meus colegas de trabalho comentando que aos vinte seis anos já é tempo de se casar ou estar noivo pelo menos, supus que falavam de mim e não preciso ter certeza disso. Estou convicto sim é de que a moça da banca de o jornal é a mais bonita que eu já vi. Faz dois anos que passo quatro vezes por dia em frente e olho nos olhos dela querendo dizer alguma coisa que ela não quer entender. O problema é que a dita cuja tem só dezoito anos, pense! É uma criança ainda. Se eu encontrar alguém agora disposto a namorar, vai ter de assinar o ofício de esposa também, não tenho mais tempo a perder. Ela, claro, tem toda a vida e uma penca de moços bonitos e desilusões trágicas pela frente. Bem, sabe-se lá. Por hora amores que fiquem na dispensa, pois ontem quebrei a chave dentro da fechadura. Bebo iogurte de Ameixa e deslizo o ferro de passar na camisa bordô. Fumaça do incenso de sândalo, cenários felizes com pessoas anormais, um sol bem grande e nuvens disformes. Estou decidido, amanhã peço o jornal e a convido pra comer um pão de forma com chá de funcho. Poderia publicar um livro com todas as correspondências de amor e paixão que deturparam minhas esperanças sentimentais. Apartamento 301, digo assim que ela aceita o convite. Fumaça na chaminé, um riacho que desce lá do alto da montanha e pinga uma gota de tinta no carpete logo que soam as batidas na porta.

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