Caio


O
problema é que se escrevesse no papel, seria tomado pela preguiça ao transcrever para o computador. Ainda assim, vez ou outra me arremata um desejo de ver as letras se desenhando na matéria sólida e branca, isso quando não sou obrigado a fazê-lo. Ontem, por exemplo, foi num instante e tudo estava escuro, cegueira artificial e vou eu a caça de fósforos. Quando tudo já se apresentava mais calmo, lá foi a caneta dançar seu tango de narrativas marcadas guiada pelos meus dedos. Pus-me sob o cobertor usando somente uma camiseta, as velas criavam sombras vivas e trêmulas pelas paredes. Perdia a exatidão da linha reta e minha história vazava pelas margens.

“Parei de contar dias da semana.
As estações passam por mim,
Importa-me pouco,
Sinto cheiro, frio,
As meias do sapato molham
E suo do calor que faz na minha consciência.

Escalo o pé de laranjeira
Pra ver o mundo bem do alto.
Faço todo dia
(que amanheçe feriado).
Se tropeçar,
Eu Caio,
Mas se sou Tadeu,
Você não iria acreditar mesmo.”

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