Maison de l'amour



La-laraia-la-ra, la-laraia-la-la-la-raa... Eu nem percebi você crescendo, menino. Veja só, essa cama já nem suporta seu tamanho, seus pés ficam de fora. Quando isso aconteceu Maison, ontem? Sim, enquanto eu fui à padaria comprar pães, aposto. Sabe, achei bonito que você guardou seus brinquedos para seu irmãozinho. Sempre tão gentil, tão afável, ele certamente vai se alegrar. Maison, você lembra? Lembra quando você era menor e nós morávamos numa grande casa repleta de árvores, flores e frutos? Constantemente apareciam pássaros - dos tantos que se alimentavam e cantavam por ali - mortos por fatalidade natural ou por um e outro menino certeiro em seu bodoque. Você não percebia, mas eu o observava de longe, por detrás das panos de prato que secavam dependurados nos varais da sacada. Observava você desempenhar com afinco a sua tarefa magnânima de reavivar aqueles seres tácitos e imóveis nas vezes que despendiam em queda livre ante seus olhos. Dava-lhes gotas de água com a ponta do dedo enquanto acariciava e desdobrava canções desconhecidas num esforço cheio de dignidade. Você era só uma criança, Maison. Uma criança. Quando percebia, então, que aquele pássaro não mais entoaria seus cantos matinais você o enrolava carinhosamente num trapo e se esgueirava para um canto do terreno com uma pequena pá. Agachava-se e depois de alguns segundos, suponho, em silêncio, colocava-o no pequeno buraco já cavado e vagarosamente deixava que os grãos de terra preenchessem a existência daquele que jaz. Por qual motivo age assim, como desenvolveu tamanha benevolência? - eu indagava. Concluí, por fim, que havia verdadeiramente pureza em seu coração de menino. Bem, agora vou deitar do seu lado um pouco, tudo bem? Como você está gelado, Maison. Maison?!


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