Faz calor, depois faz frio.


Terminei com ele. Não dava mais. Acabou. Fui muito tola em perder todo esse tempo achando que a nossa história daria certo. Isto foi o que eu lhe disse quando me ligou pela manhã. Fim. E “felizes pra sempre” fica pra depois, depois do jogo em que o grêmio ganhar fora de casa. Não queria ser uma mosca nem um mosquitinho pra ver a cara que ele fez, fico em corpo feminino que está mais desejável. A curiosidade não é tanta, certo? Depois disso não consegui mais pensar ou comer algo direito, tive de ir correndo ao cartório fazer a venda de minha moto no intervalo do almoço. Quero investir um pouco mais no meu apartamento, contratar uma empregada, quitar as parcelas vencidas, comprar um colchão novo e alguns vinhos de boa safra. O rapaz foi engraçado, aquele que me atendeu. Tinha uma voz grave, bem sonante, e brincava enquanto fazia as perguntas do cadastro, fui simpática também, não se pode perder a chance de deixar boa impressão, além do mais hoje é sexta-feira e à noite vou sair pra destroçar a menina santa que era. Ficou uma sensação agradável. Em contrapartida, pra contribuir como fato infeliz fui chamada à sala da minha chefa. É Marta o nome da mal-humorada. Disse que meu desempenho vinha caindo e que eu estava arrumando atrito com meus colegas de trabalho sem razão. Também pudera, com o soldo miserento que ela me paga pra viver rodeada de burros e sanguessugas oito horas por dia, queria que eu estivesse como? Nem falei, ela é uma vaca. Transa com o segurança careca e pançudo e acha que ninguém sabe, ainda desfila com aquele casaco de pele de chinchila como se fosse a Rainha da Festa do Aipim. Odeio aquela mulher. Da vontade de encher aquela cara maquiada de bolacha. Dia tortuoso. Terminado o expediente tive de ir a pé pra casa. Choveu e ainda tranquei a perna em um galho quando caminhava, esfolei o joelho. Acho que ninguém viu. Fiquei encharcada e esfolada. Gritei: ô diabo! Olharam-me, alguns. Sentei no cordão da calçada e permaneci analisando a gravidade do acidente. Sem mortos. O rapaz do cartório então passa por mim, não me reconhece. Nem sequer olhou. Ele é bonito. Dobra a esquina a passos lentos e nunca mais nos encontraremos. Escuto as sirenes se aproximando.


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