Vai




“A quatro mãos escrevemos este roteiro

para o palco de meu tempo:

o meu destino e eu.

Nem sempre estamos afinados,

nem sempre nos levamos

a sério.”

(Lya Luft)


Eu me arrependo, casei cedo demais. Nem imagino o que os homens tenham que os tornem tão diferentes depois de assumir um compromisso, é como se houvesse uma necessidade de externar as más qualidades, antes inexistentes. O nome dele é Jair, você sabe. É importante lembrar que eu o amo, entretanto é aquele tipo de homem deprimente que chega em casa do trabalho, coloca um calção vermelho, uma camiseta velha e a partir daí seus maiores esforços consistem em ligar a televisão, indagar se o jantar está pronto e roncar até o amanhecer. Pavoroso. Ontem pedi que ele levasse o lixo pra rua, resmungou um pouco, jogou a sacola na lixeira com desdenho, mas levou. Senti-me vitoriosa. O maior problema é que esses meus excessos de coragem não são constantes, a forma como ele age associada ao estresse acumulado do dia me deixam com uma sensação de desolação e repugno. Temos uma filha, a Sofia. Em grego significa sabedoria. É que quando namorávamos o nosso maior desejo era passar a lua de mel na Grécia. Não foi bem assim, claro, fiquei triste por isso. Odeio essa mesquinhez diária, essa ausência de perspectivas. Em algumas noites, quando ele já está quebrando o silêncio com seus ruídos incômodos e Sofia não desatina a chorar, eu vou para sala e fico escutando os blues melancólicos da Ângela Rôrô no aparelho de som que ganhei de minha sogra rabugenta. A única coisa útil que ela fez em toda sua vida. As músicas me levam e me desfazem. Fecho os olhos e tudo poderia ser diferente. Sou infeliz. Acho que ele é também. Estamos juntos e tão distantes. Há tempos não fazemos amor nem conversamos, suspeito que esteja me traindo com aquela loira oxigenada da Daniela. Nem me importo mais. O fato é que quando estou com você, Marco, tudo fica perfeito. Seu corpo esparramado nesses lençóis de seda é meu refúgio. E você não precisa ficar ouvindo meus problemas e angústias, tê-lo com esse tesão desmedido é tudo que preciso por enquanto. Na primeira vez lembro que você disse: “vou dar nome ao seu paraíso”, apontando à placa escrito Motel. Que Deus me perdoe pelo que fiz e faço, mas tudo que eu precisava era desse carinho e atenção. Agora só de passar próximo desse antro já fico com o corpo mole, um calor preenche todo o meu corpo e minhas bochechas ficam coradas. Esses ambientes de deleite, sigilosos e pintados com cores gritantes, mulheres de respeito não freqüentam. Sinto medo que alguém descubra e hoje vou pra casa logo para evitar suspeitas. Rezo por todo o caminho. Sinto-me imunda. Abro a porta devagar pra que ninguém acorde. Jair, o que essa vagabunda está fazendo na nossa cama? Eu nem posso acreditar no que eu estou vendo! Faça-me o favor de sumir da minha vida e leve-a com você! Suma daqui Jair... Sento no chão, não pretendo chorar. Na sala escuto as velhas canções na voz rouca de uma cantora deprimida e agora sei que tudo mudou.

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