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Mostrando postagens de Agosto, 2009

Vai

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“A quatro mãos escrevemos este roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério.”(Lya Luft)
Eu me arrependo, casei cedo demais. Nem imagino o que os homens tenham que os tornem tão diferentes depois de assumir um compromisso, é como se houvesse uma necessidade de externar as más qualidades, antes inexistentes. O nome dele é Jair, você sabe. É importante lembrar que eu o amo, entretanto é aquele tipo de homem deprimente que chega em casa do trabalho, coloca um calção vermelho, uma camiseta velha e a partir daí seus maiores esforços consistem em ligar a televisão, indagar se o jantar está pronto e roncar até o amanhecer. Pavoroso. Ontem pedi que ele levasse o lixo pra rua, resmungou um pouco, jogou a sacola na lixeira com desdenho, mas levou. Senti-me vitoriosa. O maior problema é que esses meus excessos de coragem não são constantes, a forma como ele age associada ao estresse acumulado do dia me deixam com uma sensação de des…

Faz calor, depois faz frio.

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Terminei com ele. Não dava mais. Acabou. Fui muito tola em perder todo esse tempo achando que a nossa história daria certo. Isto foi o que eu lhe disse quando me ligou pela manhã. Fim. E “felizes pra sempre” fica pra depois, depois do jogo em que o grêmio ganhar fora de casa. Não queria ser uma mosca nem um mosquitinho pra ver a cara que ele fez, fico em corpo feminino que está mais desejável. A curiosidade não é tanta, certo? Depois disso não consegui mais pensar ou comer algo direito, tive de ir correndo ao cartório fazer a venda de minha moto no intervalo do almoço. Quero investir um pouco mais no meu apartamento, contratar uma empregada, quitar as parcelas vencidas, comprar um colchão novo e alguns vinhos de boa safra. O rapaz foi engraçado, aquele que me atendeu. Tinha uma voz grave, bem sonante, e brincava enquanto fazia as perguntas do cadastro, fui simpática também, não se pode perder a chance de deixar boa impressão, além do mais hoje é sexta-feira e à noite vou sair pra dest…

Sem grilos de mim

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Não peça pra Ganhar aquilo que você nem sabe se Compraria. Viu Flor, não posso ir de encontro às vontades que bem gostariam de serem libertas. E se eu não for nada do que você imagina? Essas moçoilas que me elogiam não sabem o que dizem, nem sequer descobriram como usar os lábios quando postos ao calor do outro. E também, o que você pensa? Como vou saber o que se passa por detrás destas lentes novas, o que você tem visto por ai? O que tem incitado sua libido?
Estive pensando, enquanto conversávamos de zodíaco: presente bom é aquele ideal, o que se encaixa no nosso molde consumista, que será usado até que o desgaste termine-o. Se não for assim é “lembrançinha”. Certo, também é interessante, a intenção é valorosa, mas chama-se assim pelo fato de ser algo permanentemente inútil, a menos que o desejo seja lembrar a pessoa que dera, ou, quando muito, do dia. Tudo na vida é assim, não é? Sua última paixão, por exemplo, foi uma lembrançinha, não um presente, senão estaria indo com você compra…

Pensam, os outros.

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Sou independente do alheio.A eles, qualquer cousa é outra.Por isso sou outra cousaQue não o transformismo exatoDos pretextos conformistas.Sussurram meus respeitos:Feitos, desfeitos e insatisfeitos.Contam o que viram,Mas não souberam. Toda verdade,É mentira semeada em solo fértil.Lamento. Segredo. Conclua da semente a fruta,Mas desconheça aroma e doçura.Se percorro o mesmo círculo,Perco meu centro.Se engrandeço minha causa,Fico demasiado pequeno.Sou e me deixo ser. Só.

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Remédio ao soluço?
Não há.
O mundo não me assusta.

Garden

Não sou flor que se cheire.Composteira de varanda,estou mais pra março chuvosoque abril nos dias de maio.Pára-raio de submarinoescondido do castigoaos pecados tempestuosos.Não sou florde quintais bacanais por pólen no vento.Sou mais, sou fortede aço mordaz poragente de feitos.Meu cheirode jasmim desaparentanão há, nem éenfim, de açaí ou mulher.Só sei,que não sou flor que se cheire.O que se faz de mim, então?Enfeite.

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Se eu durmo, eu esqueço. No sono as idéias se desprendem de mim e se transformam em sonhos. Meu travesseiro esconde tudo em suas fibras, Maldito!

Nathalia

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Vou deixar que morra em mim a saudade que alimento, O vento forte e o tormento que movimentam as flâmulas Içadas no convés da minh’alma. Permito que seus olhos não encontrem mais os meus Onde seus suspiros ficarão sem motivos aparentes E sua dor será desconhecida pelos homens. Esticarei as amarras desse Monstro silencioso, Vigiá-lo-ei em noites e dias que for incompreendido Ou dito, por suposto motivo, algoz da liberdade. Mas serei inventor de uma nova ciência E desbravador dos segredos da alma. Irei encontrá-la, por força então compreendida, Na dimensão d’outros tempos de lembranças. Renasceremos nas carnes de um novo mundo Encontrados lado a lado: monstros, flores e amores. Seremos obra inacabada no deleite da evolução. Deixarei que se faça o Efeito de minha Causa Em direções independentes de locais incogitáveis, posto que, Constatastes haver vida inteligente Na pluralidade dos mundos habitados. Mencionarei que nossos espíritos se despem e Encontram-se sem que saibamos da seresta aos cometas. Abrigue meu…

Madeu Tarcon

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Acho que sou muito menino. Acho e sou. Sinto-me egocêntrico também, só porque fico me entediando com meus vértices de personalidade. Leio de Filosofia e Sociologia do Sentimento, nem tudo se esclarece nem convenço a seu respeito. Meu horizonte é ser coeso em exercícios de solidão reflexiva. Não quero ser assim e minto pra que os outros não notem que são semelhantes a mim. Ando sem pressa. Acontecem os acontecimentos no devido descompasso de momento, então deixo. A gente se apaixona aos poucos, com o canto dos olhos, por qualquer coisa ou qualquer um que não seja qualquer. Quando vê é um só. Um só de dois contorcidos dementes em vertente de prazer. Mas vá lá, sei que o mundo inteiro anda gripado e usa lenços descartáveis de costas para estranhos, medo de quê? De que não haja estranhos. E nem pense em abrir a porta pra eles, qualquer coisa chame a vizinha, o telefone dela está dependurado na geladeira com o imã de botijão de gás. Engraçado que os cavalos continuam no meu caminho pro tra…

Maison de l'amour

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La-laraia-la-ra, la-laraia-la-la-la-raa... Eu nem percebi você crescendo, menino. Veja só, essa cama já nem suporta seu tamanho, seus pés ficam de fora. Quando isso aconteceu Maison, ontem? Sim, enquanto eu fui à padaria comprar pães, aposto. Sabe, achei bonito que você guardou seus brinquedos para seu irmãozinho. Sempre tão gentil, tão afável, ele certamente vai se alegrar. Maison, você lembra? Lembra quando você era menor e nós morávamos numa grande casa repleta de árvores, flores e frutos? Constantemente apareciam pássaros - dos tantos que se alimentavam e cantavam por ali - mortos por fatalidade natural ou por um e outro menino certeiro em seu bodoque. Você não percebia, mas eu o observava de longe, por detrás das panos de prato que secavam dependurados nos varais da sacada. Observava você desempenhar com afinco a sua tarefa magnânima de reavivar aqueles seres tácitos e imóveis nas vezes que despendiam em queda livre ante seus olhos. Dava-lhes gotas de água com a ponta do dedo enq…