Me conto. Tome com.



Esqueci meu endereço. Esqueci. Meu endereço é onde você me encontra, e, você me encontra em quem me ama. Gosto do sorriso canoinha, tão simplesinho quanto sumo. Canoinha que navega nos mares da face sendo empurrada pelos ares de um disfarce tão convincente pra mim. Você é um disfarce. Eu não sei como você reage se eu morder seu braço, tampouco se há um pula-pula na sua sala e um coqueiro no quarto: você é surpresa. A parte que eu vejo é parte menor, objeto social relacional, digamos que instrumento para envolver e poder se deixar conhecer na medida exata. Cheiro. Ah! Como gosto do aroma que é bom, que é doce – mas não doce ao exalar, e sim por ser sensível, miúdo, levemente inebriante. O perfume, ou seu plural, deve ser sobre tudo uma espécie de “espião desastrado”: cauteloso pelo ar, tentando ser imperceptível, mas cometendo a conveniente e agradável gafe de se deixar perceber. Cores. Agrada-me o roxo, o vermelho, o preto, o branco, o róseo; o equilíbrio da cor com o indivíduo é determinante, seja nas medidas exorbitantes ou discretas.

Que sono.

Sou mais farpado do que arame.

Prefiro estação à roupa.

Vitrine à noite,

Lindo ver os manequins agasalhados.

Emaranhados

Ficam os cabelos do meu desejo;

Atascados

Ficam os dinheiros, no ensejo

Do ócio com amigos.

A forma de caminhar tem de manter os pés ocultados pela nuvem que serve de chão, leva os sentidos ao próximo passo. O olhar é percebido tal qual lago europeu refletindo o sol do entardecer nas árvores da margem. Passeiam calmos pelos cantos e encantos, encaram e desviam como a negar estarem mirados naquela direção. Prefiro os seus.

Bocejo, Eu.

Começo e esqueço o fim que planejei.

Não faço fim

Tudo termina por si só

E tudo fica diferente quando

Recomeça logo ao lado.

Essencial é que me apaixone por você

Sou devoto,

De todas as santas que usam saia

Saia daqui!

Avença mais desmedida.

Vá atazanar suas pálpebras

Seu sono na nata

Sonho com o leite

Da teta da vaca.


Você, pra mim, até que vale a pena.

Não o tinteiro.


Assino,

Rabisco um escrito pra marcar que admito ter dito,

Ontem.


Comentários

  1. Bela texto, belas palavras. Gostei da imagem da vaca, nua e pura, praticando seu hábito extintivo de mastigar, engolir, ruminar e voltar a mastigar mais uma vez. Tem coisas assim na vida. Quando algo é bom, mastigamos e engolimos. Mas o desejo de reviver é maior, e quando coseguimos, ruminamos e tornamos a mastigar, saboreando mais um pouco. Mas como a grama, a segunda vez não é tão deliciosa como a primeira, já vem meio mastigada, meio pronta, já se prevê aquilo que se quer. A primeira mastigada deve ser bem realizada e bem saboreada.
    Gostei do sorriso canoinha. Me fez lembrar de quando minha namorada usava aparelho nos dentes. Um bocejo, e eu me despeço, agradecido pela bela contribuição cultural que me proporcionaste. Continue a escrever, continuarei lendo.

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