Clave de dó



Escrevia como se tocasse nas teclas de um piano. Sorria como nunca, e como sempre, confirmando o sucesso de seus planos. Pode isso, seus planos errados dão certo - ao inverso – correto? As palavras são acordes, faz sinfonias, canções de amor, horror e pudor violado. Feito louco toca seu piano de letras nas noites em que não há sexo, drogas ou edições recentes de revistas pornôs. Calem essa maldita boca de merda! Esbraveja. Soca a parede e morde os lábios reprimindo dor e raiva. Retorce a garganta pigarreando, cospe na sola do seu sapato pardo e calcula meticulosamente a trajetória para acertar os malditos gatos que teimam em gemer no seu pátio sob a janela de seu quarto amarelo xixi. Senta na cama e leva as mãos à cabeça. Deixou mais um texto pelo meio pra cortar o cabelo. Disse: corte desordenado pra que assim seja o ajeitado. Bagunça na cabeça. Precisa de um abraço. Será que foi enganado por um amor de eternidade? Passado. Tira a roupa sem pressa, peça por peça, sol a pino e sente o frio penetrando seus ossos pelo corpo inteiro. Treme. Faz frio no fogão sem lenha. Senta-se nu frente ao piano, o tempo parece parado. As nádegas endurecem ao tocarem o assento da cadeira. Os dedos se sacodem pedindo algum calor enquanto fazem outra canção gélida que só o silêncio quente de um leitor pode revelar. Vai em direção a estante da sala, colhe uma garrafa de uísque como se tivesse avistado uma laranja apetitosa no pomar de sua vizinha. Precisa cortar as unhas dos pés, alguma superstição em fazê-lo pelado? A campainha. Deve ser a pizza que chegou. Abre a porta. Desenha seu nome com a maionese.

Comentários

  1. Quando de repente, avista um cabelo na em cima de uma calabresa de sua pizza. Reação de repulsa. O cabelo é levemente encaracolado, e curto. Mas fecha os olhos e em uma golpe apensa come o pedaço, com calabresa e cabelo. Afinal, o que os olhos não vêem, o estômago não sente.

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  2. Cara. Tá cheio de erro o meu comentário que acabei de redigir. É efeito dos remédios antialérgicos que ando tomando.

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