Deiny – vizinha de Anne




É Deiny que chamo. Era o nome artístico de uma cantora brega que minha tia morena falsa era fã. Ficou esse, acho diferente, é... diferente sim. Como o nome, nunca fui a mais bonita, fui não. Não sei pra quem puxei. Eu era aquela que existia no meu cantinho permanente e receptivo da sala de aula, do escritório, da casa... Não era aquela que as outras garotas buscavam ser amigas, ou mesmo a que os garotos disputavam para estar na presença. Eu não era mulher de verdade, não, mulher tem presença. Minha professora havia dito que na época colonial as mulheres mais apessoadas e ricas tinham os dentes podres: açúcar era artigo de luxo. Usavam vestidos longos e com armações exageradas para que quando da necessidade pudessem agachar tanto quanto necessário e urinar, ou, defecar. Fiquei surpresa. Mas na minha vida não fazia diferença, pois não tenho dentes podres, e sou limpinha, agora a seleção social é macabra e impiedosa.
O fato que perturba, é que nunca tive um menino pra namorar. O máximo que ocorreu foi na quinta série: apaixonei-me por um que sentava na carteira à minha frente, entretanto, depois de dois anos - foi um bom tempo - quando tomei coragem para lhe mandar o primeiro bilhetinho inocente, ele leu e aquela foi a última vez que me olhou sem que fosse para zombar. Ontem eu o vi correndo no parque, me cumprimentou com um aceno leve da cabeça. Nem se lembra de mim, eu acho. Cresceu. Eu ainda não. Mas voltando ao assunto, nunca tive relacionamentos que fossem amorosos. Tempos aí cheguei a ser mais íntima de alguns moços. Não durou. Sou assim, desagradável. Um pouco talvez. Nem não vou perguntar, deixa pra lá.

Quando eu era menor adorava jogar futebol. Meus pais não, odiavam isso. Diziam: "não quero ter uma filha lésbica, jogar futebol é coisa de moleque aprontão". Aceitei, não joquei mais. Amor e futebol passaram a ser exercícios proibidos a serem vistos sob uma mesma perspectiva. Construía co-relações, percebia os fatos comuns, ou as analogias possíveis. Queria fazer o tempo passar. Queria estar entretida quando isso acontecesse. Queria entender a vida a partir da minha vida, entender as vidas que passam pela nossa vida. Por exemplo, o técnico sabia qual jogador trocar nos nossos treinos, porque ele tinha um olhar externo da conjuntura, ele não jogava. Pensei: "vou ser treinadora no amor, já que não sou jogadora". Repensei: "como eu penso idiotices". Na realidade entendia pouco de futebol, pra não dizer nada. É que por um momento notei que a minha posição aceitativa de percepção externa no jogo do amor, me dava uma visão diferente das coisas, não revoltada por ser só, mas analisativa por ser só. Eu entendia o pouco tão incompreensível.

Hoje, então, veio uma amiga, com outra amiga, contar e pedir conselho sobre seu parceiro. Que por sinal não o era mais. Mulheres andam em bando, quando ficam deprimidas ainda mais. Ela me contava e chorava, a outra consolava e pedia para ela ficar calma; eu ouvia. Disse-me que ele estava indeciso e mais tantas e tantas outras parafernálias verbais que o vento levou pra longe dos meus tímpanos. Eu disse que se ele manifestou isso a ela, é porque não a amava realmente. Desabou em lágrimas. Eu Acredito que quando há um sentimento e os impedimentos para que as partes se amem infinitamente não existam, qualquer outra dúvida é prova exclusivamente de desamor. Ela soluçou, enxugou os olhos aos resmungos. A amiga consoladora logo partiu em apoio: "anime-se, façamos nova tentativa! Vamos escrever a ele, vamos procurá-lo". Não opinei. Não era o momento. Existem pessoas que preferem não ouvir as histórias completas. Pediram se existia chance dele “balançar” ante a manifestação de afeto. Concordei com pouca ênfase. Breve foram embora com um sorrisinho nascendo receoso. Se eu explicasse não iriam entender. Amor é drástico. Amor tem de ser tragédia grega em intensidade; do contrário é paixão, carinho ou sei lá o que. Sabia que ela iria conquistá-lo caso quisesse, homens são burros em longo prazo, pensam no tempo imediato e só. Ela era bonita, desinibida; ele desimpedido. Alvos certos pra cupido de pouca mira.
No meu mundo fico eu pensando amores, ou não, de terceiros. Medindo a influência prática e favorável dos seios grandes e nádegas proeminentes na dança da conquista e do desencanto. Ah! O padre disse ontem que era errado eu ficar pensando essas coisas, cedo demais pra mim. Não sei, mas acho que não. O padre que é sozinho por opção, sempre é visto rodeado de beatas de pouca saia. Minha vizinha, que não vai muito com a cara do carequinha da paróquia, esbravejou na missa de domingo: “seu safado, safado! Todos sabem das suas safadezas”. Evitaram comentar. Avença à comunidade, isso sim. Nunca gostei muito dele, cheio de teorias débeis e impraticáveis, discurso fácil. A catequista disse que eu devia contar todos os meus pecados, fiquei com medo. Não, não vou contar. Ninguém precisa saber de mim por mim. Fico eu em mim, oras! Sem menino pra namorar. Existindo no meu cantinho permanente e receptivo. Existindo, viu! Basta ver que eu existo.

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