Anne



Odiava quando ele me olhava daquele jeito. Eu sabia que coisa boa não viria, minha mãe tinha o hábito de dizer que as mulheres conseguem saber das coisas até mesmo pelo olhar daqueles que se manifestam, nunca contestei: ela sempre soube mais do que demonstrara. Agora, enquanto ele se põe nesse exercício de passar as mãos no rosto e desvia o olhar vazio da minha direção, eu sei, vai acontecer tudo de novo. Tudo aquilo que eu preferia que jamais acontecesse.

Sei como vai ser, dirá que nós precisamos conversar, que só quer a minha felicidade e que sou especial; mas e daí? Afinal, não importa. Todo sol que invadir meu quarto vai mostrar que a meu lado, ninguém fizera companhia. E se fosse verdade tudo aquilo que eu bem sei que ele vai dizer, não precisaria curar a magoa só. A gente poderia concertar, poderia. Tudo bem, eu sei que fui implicante, ciumenta, sei que cobrei demais algumas vezes, mas... Ai, pronto ele vai falar! Pegou a minha mão com uma expressão de consolo, alisou-a por ato de desconcerto... Odiava também quando ele ficava pestanejando, deixava as coisas pelo meio, dizia pela metade, ele era uma bomba, que tão pouco era possível prever seu explodir.

O que sempre achei curioso, nessa tempestuosa brincadeira de amar e sofrer por amor, é que você nunca pode prever qual papel vai assumir na próxima peça que a vida lhe pregar. Sempre acreditei que um amor de verdade não acaba, não enfraquece, não cogita dor ou provoca qualquer desagrado. Acredito que quando há amor as partes podem exprimir o que efetivamente são, inclusive aprendem a admirar, porque o outro deu percepção, àquilo que não davam tanta importância em si mesmas. Um amor não é uma jaula. Não é uma repreensão silenciosa. É a parte mais significante da conquista da liberdade.

Enfim, é por isso que apesar da minha vontade ser de lhe esbofetear, eu me continha e dava atenção àqueles dizeres misturados e insignificantes. Entendia essa busca do amor, e o que era mais difícil, entendia que as palavras eram conceituadas pelos dicionários, mas sentimentos não, sentimentos eram interpretação, e interpretar é um exercício que leva em conta as concepções individuais. E ele, ah, sempre foi tão bom com as palavras, mas com os sentimentos...

Em intervalos breves ele passava a mão nas calças, como se estivessem suadas e precisasse secá-las. Certamente estava tentando demonstrar que ainda se preocupava com o que eu fosse pensar ou julgar de sua atitude. Mas, dinâmica interessante aquela, continuo pensando: amar e sofrer por amor, ou talvez a palavra não fosse amor, a partir da idéia de que para mim o fim dava status de paixão simples, ou sentimento de carinho, apenas. Entretanto para entendimento imediato, deixe assim mesmo. O mais importante é que se hoje se está sofrendo, amanhã se pode estar fazendo sofrer. A entrega tem de ser plena, a pureza do sentir provém do brotar natural do sentimento...

Ele está falando. Está falando justamente o que eu supunha. Sim, talvez seja melhor que estejamos separados se a relação não está mais dando certo. Mas e o que deu errado? Queria gritar na sua cara. Fui o melhor que pude ser. Ele não entende nada mesmo, nada. E se eu explicasse tudo? Espera! Eu não falei o que penso ainda, espera!

Dar de costas nem é tão complicado pelo jeito, deveria tê-lo feito antes só para que ele sentisse o que eu sinto, ou talvez seria o que ele desejava que eu fizesse. Não vem ao caso. Preciso deixar de lado, esquecer tudo isso.

Deite, desabe as pálpebras. Descanse que tudo melhora. Ouça, viu só? Até os pássaros já cantam, até os vizinhos já festejam, até os colegas já sorriem. Afinal, nem tão grande tragédia que valha grande sofrer. Vai, descanse. Descanse de tudo. Diriam-me em consolo impróprio.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O déspota solitário de Tallinn

Historicamente Nú.