Eclipse Oculto - Carta*

"Eu sou só um cara? O garoto que não sabe escolher os próprios perfumes, não sabe que nome daria a um filho, de tempo sempre curto, que não pode exceder, não dá pra ficar mais; mas você se importa se isso for parte de mim? Se importa. Eu sei. Mas tudo bem, afinal, só mais um cara perdido, poderia ser eu ou o homem que lhe pediu a hora na rua, o mendigo, o guarda, o vendedor de abacaxi, ou qualquer um. Não é?

No tempo que decorreu e nas mudanças que ocorreram, já contei de você, e claro, você já falou de mim. Tudo bem, são aqueles momentos em que uma afinidade recente te deixa a vontade pra derramar as fatalidades, e eu, sim, fui uma destas. Mas você bem sabe que quando fala de mim, não fala de mim, fala de outro, outro que você resolveu tornar, com minha total confirmação, o preâmbulo mal escrito de uma narrativa inacabada.

Ainda, o fato de a tanto não ver os traços e trejeitos, facilita-lhe me tornar um personagem real distorcido na convicção dos seus próprios dizeres. No seu mundo, não tão longe do meu - mas que possui uma ponte ruída - sou o tipo mau-caráter: existiu, talvez fosse melhor que não. Aí dizem: esquece-o de vez! Você não o faz, não é algo que se determine, todavia aos poucos deixa a camiseta alaranjada perder a cor no local donde ele partiu com seu beijo, local onde você revisita tantas vezes na rotina de tão breve nem lembrá-lo."


Não quero voltar,
na verdade, nem cogito
ir embora do amar.
Fora única até então,
As outras, não faziam
o que eu gostaria que fizessem;
As outras, não diziam
o que eu esperava que dissessem...
Todas as outras, enfim

não eram você.

* De tempos passados. Dizeres sem destinatário. Revolta do sentimento.

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