Hemodinâmica



(ENTRADA EXCLUSIVA DE PACIENTES)

Estávamos sentados, um ao lado do outro, tia e sobrinho, nos bancos que suportam o desconforto do peso da espera por notícias de pacientes do Hospital de Clínicas. Era um daqueles dias em Porto Alegre de calor extremo que o relógio zela pela lentidão dos minutos. A todo instante saiam enfermeiros da sala de porta amarela, logo à frente, tremendamente climatizada, chamando por parentes de um ou outro indivíduo que sofrera intervenção, isso aumentava a angústia.


E ainda os Hospitais têm um cheiro característico de repugno imediato, mas que logo se torna habitual, a propósito, tempo não faltara para que me habituasse ao ambiente. Meu pai chegara às nove e trinta da manhã, às dezessete entrara na sala para o procedimento: colocação de um stent a fim de melhorar o fluxo e conseqüente desempenho cardíaco, já que suas safenas estavam ocluídas. Saíra somente às vinte e uma horas para voltar aos aposentos hospitalares, 767 A, enfim tudo acontecera maravilhosamente bem.


Concordemos que adoecer é um presenteio grego e injusto da vida, contudo propicia uma humanização da nossa forma de agir e pensar. Ficar na presença de alguém prestes a chegar à fronteira do respirar ou não é algo que nos impacta, faz brotar de forma estranha uma compaixão, um amor mais nítido e isso é bom, da vontade de esclarecer, ou lembrar, a tamanha importância que a pessoa tem na nossa vida.


A morte não me assusta, de forma alguma, mas toda a atmosfera fúnebre representa uma morbidade à minha alma. Nesse sentido eu sou uma contradição nítida: mesmo aceitando o caráter momentâneo da vivência carnal eu delego a qualquer perspectiva de futuro uma depreciação inerente à solidão, palavras deprimidas, traços tristonhos. É como se eu desejasse que o término acontecesse como algo comum, como um sabiá cantando cedo pela manhã, como colocar as meias antes do sapato, tomar banho ao vir do trabalho, simples assim, gostaria.


Que seja este um registro, registro da realidade, das andanças que o fato de estarmos respirando nos obriga. Hoje, neste momento, acredito que só é perene a Imagem Verdadeira do ser-humano, aquele “eu” imparcial que dispensa o mundo das sensações imediatas. Mesmo que eu tenha começado a escrever com um intuito mascarado de descobrir também as fronteiras da imortalidade, pensando que meus desnorteios adolescentes poderiam ser lidos futuramente por “outros alguéns”, agora não mais assim o faço, creio que parte daquilo que é verdadeiro no meu âmago fica no que tento transmitir nestes caracteres, esse ato de encontrar comigo mesmo, me basta.



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