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Mostrando postagens de 2009

Elisão

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Pensamentos pobres com retoques nobres. Profissão de esculpir atos lícitos e cenas pudicas. Exercício de acumular pedidos, promessas, Dores e visões do porvir. Cumpridos e compridos. No sótão enferrujam as algemas do meu sentir Guardo banhado de pó tudo que jaz repousando, Regado de ódio um tanto e outro, ainda amando. Amasso-me na cadeira e o suor salgado e quente Desvia do controle dos meus poros Escore e lava meu caráter visigodo. Enternecido, lanço mão de alguns truques mágicos Angariando ouro, prata e adeptos causais de precipícios. Sorrio maligno.

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"Escrever é a única profissão em que ninguém é considerado ridículo se não ganhar dinheiro."
(Jules Renard)

Aracno

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Um tapete circular alaranjado, deitado com os braços sob a cabeça olhando para o alto. A pequena aranha sobe e desce acompanhando o movimento do meu diafragma que comprime e relaxa os pulmões. Quando alacançava uma altura suficiente despendia do alto com velocidade girando verticalmente na própria teia, parecia brincar, atriz circense. Claro, falta-lhe alguns apetrechos e enfeites pelo corpo, entretanto certamente possui grande habilidade. Mas o que aconteceu? O aracnídeo parou na metade do trajeto, aparentemente dispensando o exercício de tecer para me observar por alguns instantes. Também lê pensamentos? Aranhazinha audaciosa! Mostro-lhe a língua e ela sobe exasperadamente sua teia até o orifício de origem, quer abrigo das anormalidades do mundo. Dou uma gargalhada enquanto agito o inseticida. 

Era uma vez.

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"Eu sou cada segundo da minha vida, uma história presente."

Interior, bem escondido no meio das árvores que fazem cócegas no céu. A ponte sobrevive arqueada sobre o riacho, de tijolos firmes nessa função de tornar travessias possíveis, de ser o vínculo das coisas naturalmente distantes. Uma pequena cachoeira de água límpida e gelada, sento-me nas pedras deixando os pés submersos balançando naquele movimento infinito da correnteza. Mário Quintana afirmava haver tristeza nos rios por não poderem parar, são contínuos, não retornam para os lugares por onde passam. Eu paro, retrocedo, relembro e revivo. Estou quieta, imóvel, o ar é mais leve e meus membros amolecem. Aqui eu cresci, aqui tive meu primeiro amor e chorei no quarto com a porta trancada quando ele acabou, fui castigada pelos meus pais e me escondi no mato até que a raiva passasse. Este lugar é meu templo e hoje sou mulher, e sou bonita, sei seduzir, convencer, trabalho e faço essas coisas normais e mesquinhas que obri…

(A) Hora

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Vou tirar umas férias dos meus compromissos de ócio. Não escrevo mais por algum tempo, nem penso ou ajo para impressionar. Existem momentos exigindo o "mais ou menos" naquilo que deveria ser primordial, a fim de que uma segunda realidade fique em primeiro plano. 
Se tiver que fazer algo na sua vida, faça por si e para si mesmo. Sim, há alguém avaliando o que e como faz. Dane-se. O prejuízo ou o benefício virá exclusivamente para sua caixa de correio. Faça o melhor. Toda a manhã eu desejo que meu dia termine sendo o mais excelente que eu puder viver, que cada conversa seja a mais fascinante e que cada sorriso seja o mais lindo e verdadeiro. 
Quer me conquistar? Sorria. Dê ao seu sorriso proporções maiores que às suas reclamações, ainda que eu sempre queira ouvi-las. Entregue-se à sensação. Você sabe quais ruas eu passo, os locais onde paro, será difícil me encontrar? Chame e eu vou com pressa.
Preciso descansar um pouco, tenho uma impressão concisa que estou desgastado pelo trab…

Rato

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Chove agora, amanhã alaga e depois é sol na cara. Despido, inteligente e corrompido faço o tope como uma criança que ainda não aprendeu amarrar o próprio calçado. De ruim não passa, o além é descaso com a própria sorte. Homens e mulheres, respeito, amor, indecência, verdade e sempre a história fica pela metade, e sempre alguém interpreta errado e o Sempre é uma contingência de desocupados. Acordo e ligo o rádio, ensurdeço minha seriedade. Eu não sou réu, sou rato, mas se por pecados maiores não me mato, sobrevivo desolado o tempo da compreensão. Debruce em mim só a expectativa da mudança. A partir daqui não respondo ciente, pra que ficar perguntando? E sim, adoro biscoitos de amendoim.

Quem me habita?

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Minhas mãos são feitas disso que é carne. São nada. Posso ver através delas, juro que sim. Tentei perceber minha face com meus próprios olhos, seus ângulos e sombreamentos, a face material e não o reflexo no espelho do banheiro. Não pude. Não posso. Não tenho.

Dança em mim

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Pegue a navalha, o vinho
Deprima os ursos de pelúcia
E faça um sanduíche de ervilha.
Suba a meia-calça
E desça até a garagem
Entre no carro e
Desembarque do juízo.
Óculos escuros ficam bem à noite
Seus saltos assaltam a timidez.
Você vai engolir alguém hoje,
Cuspir na cara da pior cantada?
Ah, deflorar meus melhores acordes
Têm baratas no meu armário
Traça nos seus fichários.
Goza um desastre de picos dissonantes
Dança em mim,
Me traça que sou barato.

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É melhor que não tentem pressagiar se escrevo para este ou aquela,
é melhor que não transformem palavras em imagens;
não agora, não assim.

Single

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Agora foi. Parece-me que não consigo encontrar Alguém, e, a essa altura, também não sei dividir mais nada, nem a cama, nem o controle remoto ou o espaço do meu apartamento. Perdi a paciência para ser cobrado, fazer planos a dois e explicar o viés de meus desejos maiores. Cultivo alguns temperos na varanda, regando-os ao entardecer, deixo alguns cactos pequenos espalhados pela casa como objetos de decoração, tomo banhos longos, faço comidas exóticas, falo só e assisto a filmes proibidos pela noite.

Coke

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Você me deixou com preguiça de ser
normal. Que sinta desapego por mim.
Sabe, tô me sentindo meio coca-cola hoje.
Percebeu como todo mundo é fascinado por
algo ilimitado, ardente e molhado?
Tenho sido uma imitação do que
sempre quis ser. Olhe eu ali:
no jornal, na televisão, em você.
Na gaveta, debaixo da poeira e
pelas prateleiras se amontoam os
livros, vícios de fuga-esperança.
Tenho sido Bandido. Você se agrada
do Mocinho?
Nem acredito em tudo que ouço
Não dou crédito pra tudo que falo
Agora é tudo bobagem, faço canções
de desencanto depois das dezenove
na garagem do Pedro e da Camila.
sol menor é Dó maior.
Minha saliva tem gosto de sabão,
espumo de raiva. Quando lavo louça
quebro os pratos e sempre sou
desastre na vida de alguém.
Não, não é de guarda-chuva,
eu sempre esqueço me roubam ou perco.
Estendo-me ao longo de todo o tapete
e lanço pelos ares cartas do
baralho. Sempre sou desastre
na vida de alguém.

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Tenho pressa, mas não excedo nem me conformo. Canto e quase grito, pareço sabiá inaugurando o amanhecer. Não há volume que me satisfaça, eu quero que todos me ouçam, eu tenho algo pra dizer, vocês precisam se arrepiar, enlouquecer, berrar com toda a verdade da alma e mentira do corpo. Tudo é amarelo do sol que arde até que a tempestade arranque as roupas do varal, levante o vestido das beatas, sacuda o pólen nas flores e eu só sei fazer um passo de dança. Qualquer sensação sempre será única por ser só sua. Alguém sempre vai: morto, fugindo ou abandonando. Logo depois aparece outro: engraçado, chato ou apaixonado. Você lamenta que tudo vai mudar e eu espero que nunca mais seja a mesma. Pode chorar por amor, tudo vai dar certo quando a fronha secar. Quem nunca o fez perdeu uma vida inteira. Vem, desce as escadas correndo que lhe espero com um sorriso bem grande na face, vou ser seu amigo ao som de Tim Maia amar por inteiro.

O que você faz com ela?

Atesto que minha testa
segura da sobrancelha
o peso de seus - que são
meus - pêlos.
Se me escapa o controle
e por descuido escorre,
um tanto de espuma
em direção ao olho,
sei que me salvas
à vista
ou a prazo, é fato que lhe pago
mas não aparo
taturanas tais.
Se inclina quando indíguino
e fecha na raiva despertada,
é ainda sugestiva à libido,
quando desce junto a pálpebra
em flertes enamorados.
Salve pestanas,
celhos que vivem na sombra.
Que vidas têm?

Eu permaneço

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(Daquilo que justifica Saudade)
Que eu me faça em bronze e que de mim te tornes estátua de reverência à beleza infinita que resplandece em ti, não quero privar-me da tua presença sob circunstância alguma. Sinto tua falta. Sinto sem querer e minto que não. Quando vejo já estou imaginando o que nós ainda não fomos, qual lugar irias preferir...
- Sorvete com cobertura?
- Moço!
- Oi?!
- Com cobertura, o sorvete? (...)
Logo chego em casa, a cama me prende e eu me perco num caminhão de idiotices escritas inspiradas em anotações de espontaneidade dos meus dizeres mais sinceros. Como eu sou sem graça, penso e confirmam. Não tenho marteladas certeiras, entorto sempre os pregos. Faço o quê? Busco o novo pintado com velhas cores, assusto-me com as perdas que ainda não tive e passo o dia inteiro na janela engolindo gomos de choro.
Aí te manifestas. Sente saudade? Se lavar ela encolhe, é saudade de liquidação? Eu compro a tua. Como eu sou sem graça, não? Sentei no corredor, da forma que falei que c…

Eudaimonia Reversa

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Que vá a merda esses teus conceitos Aristotélicos, filosofia do justo meio, ética ou virtudes que nascem no reto do dia e desaparecem na cona da noite. Estou bêbado, meu amor, não tenho paciência pra esse nosso pragmatismo romântico, frases de filmes do fim de semana e versos do Djavan. Perdão, vai ser hoje. Depressa que a vergonha não te alcança, amanhã finja que nunca antes havia me visto ou simule o fim do nosso caso de corpos suados. Desevoluo ao êxtase do estágio em que a língua perde a flexibilidade e a única coisa comovente são histórias ao pé do ouvido de crimes passionais e pescarias cômicas. “Tenho vocês, e, Amigos meus, eu lhes amo além da margem desse rio caudaloso, pois são profundos demais meus sentimentos e ainda não aprendi a nadar cachorrinho, não bóio, sou bobo e afogo simplesmente renascendo pinto molhado sempre com um novamente”. Vou dançar - desambiguação: mexer freneticamente meu corpo - tenha certeza que vou fazê-lo em qualquer estado de espírito ainda que eu ch…

Egoísmo Astrológico

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Podemos afirmar que horóscopo, ainda que lido por todos, não é acreditado. Sim, pelo menos é o que insistentemente dizemos. Na sinceridade que me cabe digo que leio vez ou outra aquela coluna específica do jornal e sempre percebo presságios um tanto quanto exagerados ou equivocados. Natural, entendo que conseguir padronizar em algumas palavras os acontecimentos da vida de milhares de pessoas regidas astrologicamente de forma similar não me parece ser tarefa fácil. Deixo claro, diante dessas exposições contraditórias, que em nenhum momento me empenhei em realizar qualquer estudo mais aprofundado a esse respeito para poder delimitar aquilo que é exclusivamente fantasioso daquilo que é fundamentado, teorizado e comprovado. Parto das minhas percepções individuais, a fim de expor meus entendimentos gerais ou mesmo a própria confusão e incoerência que alimento sobre este assunto.
Ontem aconteceu algo curioso, ao verificar meus e-mails encontrei um que tratava disso e enquanto lia aquela de…

Uma tal de Lúcia.

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A oportunidade perdida, volta jamais. As sensações vividas, repetem-se nunca. Travo com a idade uma batalha da qual certamente saio derrotada. Cada flanco é cicatriz sarada com a acidez da hora ida. “São marcas de expressão”, diziam; acenava positivamente com a cabeça enquanto tateava a pele que tanto mais se enrugava com qualquer manifestação de afeto ou rancor. Percebo que aos poucos fico mais próxima da terra, minha coluna se curva de tal forma que é como se saíssem braços do solo e me puxassem pela cabeça na sua direção, o que é, notadamente, uma cobardia com alguém que mal se mantém em pé. Passo o dia na varanda vendo o movimento dos automóveis, ônibus e caminhões abarrotados da pressa rotineira. Pisco os olhos lentamente e meu maior compromisso é não perder a hora do remédio ou a reza vespertina do terço na televisão. Se a noite foi conturbada deixo o sono me arrematar e durmo sentada ali mesmo. Algumas vezes vêem visitas tomar um chimarrão e conversar qualquer coisa. Gosto de v…

Caio

O problema é que se escrevesse no papel, seria tomado pela preguiça ao transcrever para o computador. Ainda assim, vez ou outra me arremata um desejo de ver as letras se desenhando na matéria sólida e branca, isso quando não sou obrigado a fazê-lo. Ontem, por exemplo, foi num instante e tudo estava escuro, cegueira artificial e vou eu a caça de fósforos. Quando tudo já se apresentava mais calmo, lá foi a caneta dançar seu tango de narrativas marcadas guiada pelos meus dedos. Pus-me sob o cobertor usando somente uma camiseta, as velas criavam sombras vivas e trêmulas pelas paredes. Perdia a exatidão da linha reta e minha história vazava pelas margens.

“Parei de contar dias da semana.
As estações passam por mim,
Importa-me pouco,
Sinto cheiro, frio,
As meias do sapato molham
E suo do calor que faz na minha consciência.

Escalo o pé de laranjeira
Pra ver o mundo bem do alto.
Faço todo dia
(que amanheçe feriado).
Se tropeçar,
Eu Caio,
Mas se sou Tadeu,
Você não iria acreditar mesmo.”

Volúpia

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Meu corpo estremece e faz prece pra que me inunde de êxtase. Quero o prazer mais puro que houver e decido somente pelo espumante, pois do resto sou entregue. Estou ereto, meu sangue corre quente, minhas pupilas se dilatam e se outros vissem diriam que certamente me encontro abstinente de algum vício ilícito. Costure sua pele na minha, não saia sem avisar. Borde seu nome na minha nuca, deixe o riso na face. Durma com meu travesseiro de penas de ganso, mas não se ausente do meu lado. Fique com o ouro, os diamantes e a promessa da auréola, o que eu preciso é de você enrolando os lençóis amassados, abafando grunhidos e atirando peças de roupa pelos cantos de toda a casa.

Paisagens, pincéis e amores coloridos

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Gosto desses tempos em que os Ipês se carregam de flores e deixam o chão colorido. Prefiro os amarelos, pois os rosados parecem falsos. Tenho cabelo verde, que mais parece um capacete de piloto automobilístico. Dizem que sou querido. Parece mentira, mas não brigo. Se há uma coisa que eu não sou é revoltado. Lembro que na escola sempre apanhava dos outros meninos, quieto voltava ao meu isolamento prático. Sou calmo, muito. Consegui levar sete meses pra terminar minha última tela, dava três pinceladas por dia e confesso que foi a pior que meus pincéis acariciaram para dar vida. Aprendi que se deve ter as experiências no devido espaço de tempo e deixo que elas aconteçam sem demasiados esforços ou metas definidas. Existem lá as exceções, mas odeio ser como as pessoas que fazem questão de expor as brechas de suas teorias com ares de soberba. Sou simples e diferente. Às vezes saio do trabalho, passo no supermercado e compro um saco daqueles salgadinhos que são capazes de mudar nosso DNA, ta…

Vai

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“A quatro mãos escrevemos este roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério.”(Lya Luft)
Eu me arrependo, casei cedo demais. Nem imagino o que os homens tenham que os tornem tão diferentes depois de assumir um compromisso, é como se houvesse uma necessidade de externar as más qualidades, antes inexistentes. O nome dele é Jair, você sabe. É importante lembrar que eu o amo, entretanto é aquele tipo de homem deprimente que chega em casa do trabalho, coloca um calção vermelho, uma camiseta velha e a partir daí seus maiores esforços consistem em ligar a televisão, indagar se o jantar está pronto e roncar até o amanhecer. Pavoroso. Ontem pedi que ele levasse o lixo pra rua, resmungou um pouco, jogou a sacola na lixeira com desdenho, mas levou. Senti-me vitoriosa. O maior problema é que esses meus excessos de coragem não são constantes, a forma como ele age associada ao estresse acumulado do dia me deixam com uma sensação de des…

Faz calor, depois faz frio.

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Terminei com ele. Não dava mais. Acabou. Fui muito tola em perder todo esse tempo achando que a nossa história daria certo. Isto foi o que eu lhe disse quando me ligou pela manhã. Fim. E “felizes pra sempre” fica pra depois, depois do jogo em que o grêmio ganhar fora de casa. Não queria ser uma mosca nem um mosquitinho pra ver a cara que ele fez, fico em corpo feminino que está mais desejável. A curiosidade não é tanta, certo? Depois disso não consegui mais pensar ou comer algo direito, tive de ir correndo ao cartório fazer a venda de minha moto no intervalo do almoço. Quero investir um pouco mais no meu apartamento, contratar uma empregada, quitar as parcelas vencidas, comprar um colchão novo e alguns vinhos de boa safra. O rapaz foi engraçado, aquele que me atendeu. Tinha uma voz grave, bem sonante, e brincava enquanto fazia as perguntas do cadastro, fui simpática também, não se pode perder a chance de deixar boa impressão, além do mais hoje é sexta-feira e à noite vou sair pra dest…

Sem grilos de mim

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Não peça pra Ganhar aquilo que você nem sabe se Compraria. Viu Flor, não posso ir de encontro às vontades que bem gostariam de serem libertas. E se eu não for nada do que você imagina? Essas moçoilas que me elogiam não sabem o que dizem, nem sequer descobriram como usar os lábios quando postos ao calor do outro. E também, o que você pensa? Como vou saber o que se passa por detrás destas lentes novas, o que você tem visto por ai? O que tem incitado sua libido?
Estive pensando, enquanto conversávamos de zodíaco: presente bom é aquele ideal, o que se encaixa no nosso molde consumista, que será usado até que o desgaste termine-o. Se não for assim é “lembrançinha”. Certo, também é interessante, a intenção é valorosa, mas chama-se assim pelo fato de ser algo permanentemente inútil, a menos que o desejo seja lembrar a pessoa que dera, ou, quando muito, do dia. Tudo na vida é assim, não é? Sua última paixão, por exemplo, foi uma lembrançinha, não um presente, senão estaria indo com você compra…

Pensam, os outros.

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Sou independente do alheio.A eles, qualquer cousa é outra.Por isso sou outra cousaQue não o transformismo exatoDos pretextos conformistas.Sussurram meus respeitos:Feitos, desfeitos e insatisfeitos.Contam o que viram,Mas não souberam. Toda verdade,É mentira semeada em solo fértil.Lamento. Segredo. Conclua da semente a fruta,Mas desconheça aroma e doçura.Se percorro o mesmo círculo,Perco meu centro.Se engrandeço minha causa,Fico demasiado pequeno.Sou e me deixo ser. Só.

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Remédio ao soluço?
Não há.
O mundo não me assusta.

Garden

Não sou flor que se cheire.Composteira de varanda,estou mais pra março chuvosoque abril nos dias de maio.Pára-raio de submarinoescondido do castigoaos pecados tempestuosos.Não sou florde quintais bacanais por pólen no vento.Sou mais, sou fortede aço mordaz poragente de feitos.Meu cheirode jasmim desaparentanão há, nem éenfim, de açaí ou mulher.Só sei,que não sou flor que se cheire.O que se faz de mim, então?Enfeite.

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Se eu durmo, eu esqueço. No sono as idéias se desprendem de mim e se transformam em sonhos. Meu travesseiro esconde tudo em suas fibras, Maldito!

Nathalia

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Vou deixar que morra em mim a saudade que alimento, O vento forte e o tormento que movimentam as flâmulas Içadas no convés da minh’alma. Permito que seus olhos não encontrem mais os meus Onde seus suspiros ficarão sem motivos aparentes E sua dor será desconhecida pelos homens. Esticarei as amarras desse Monstro silencioso, Vigiá-lo-ei em noites e dias que for incompreendido Ou dito, por suposto motivo, algoz da liberdade. Mas serei inventor de uma nova ciência E desbravador dos segredos da alma. Irei encontrá-la, por força então compreendida, Na dimensão d’outros tempos de lembranças. Renasceremos nas carnes de um novo mundo Encontrados lado a lado: monstros, flores e amores. Seremos obra inacabada no deleite da evolução. Deixarei que se faça o Efeito de minha Causa Em direções independentes de locais incogitáveis, posto que, Constatastes haver vida inteligente Na pluralidade dos mundos habitados. Mencionarei que nossos espíritos se despem e Encontram-se sem que saibamos da seresta aos cometas. Abrigue meu…

Madeu Tarcon

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Acho que sou muito menino. Acho e sou. Sinto-me egocêntrico também, só porque fico me entediando com meus vértices de personalidade. Leio de Filosofia e Sociologia do Sentimento, nem tudo se esclarece nem convenço a seu respeito. Meu horizonte é ser coeso em exercícios de solidão reflexiva. Não quero ser assim e minto pra que os outros não notem que são semelhantes a mim. Ando sem pressa. Acontecem os acontecimentos no devido descompasso de momento, então deixo. A gente se apaixona aos poucos, com o canto dos olhos, por qualquer coisa ou qualquer um que não seja qualquer. Quando vê é um só. Um só de dois contorcidos dementes em vertente de prazer. Mas vá lá, sei que o mundo inteiro anda gripado e usa lenços descartáveis de costas para estranhos, medo de quê? De que não haja estranhos. E nem pense em abrir a porta pra eles, qualquer coisa chame a vizinha, o telefone dela está dependurado na geladeira com o imã de botijão de gás. Engraçado que os cavalos continuam no meu caminho pro tra…

Maison de l'amour

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La-laraia-la-ra, la-laraia-la-la-la-raa... Eu nem percebi você crescendo, menino. Veja só, essa cama já nem suporta seu tamanho, seus pés ficam de fora. Quando isso aconteceu Maison, ontem? Sim, enquanto eu fui à padaria comprar pães, aposto. Sabe, achei bonito que você guardou seus brinquedos para seu irmãozinho. Sempre tão gentil, tão afável, ele certamente vai se alegrar. Maison, você lembra? Lembra quando você era menor e nós morávamos numa grande casa repleta de árvores, flores e frutos? Constantemente apareciam pássaros - dos tantos que se alimentavam e cantavam por ali - mortos por fatalidade natural ou por um e outro menino certeiro em seu bodoque. Você não percebia, mas eu o observava de longe, por detrás das panos de prato que secavam dependurados nos varais da sacada. Observava você desempenhar com afinco a sua tarefa magnânima de reavivar aqueles seres tácitos e imóveis nas vezes que despendiam em queda livre ante seus olhos. Dava-lhes gotas de água com a ponta do dedo enq…

Clave de dó

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Escrevia como se tocasse nas teclas de um piano. Sorria como nunca, e como sempre, confirmando o sucesso de seus planos. Pode isso, seus planos errados dão certo - ao inverso – correto? As palavras são acordes, faz sinfonias, canções de amor, horror e pudor violado. Feito louco toca seu piano de letras nas noites em que não há sexo, drogas ou edições recentes de revistas pornôs. Calem essa maldita boca de merda! Esbraveja. Soca a parede e morde os lábios reprimindo dor e raiva. Retorce a garganta pigarreando, cospe na sola do seu sapato pardo e calcula meticulosamente a trajetória para acertar os malditos gatos que teimam em gemer no seu pátio sob a janela de seu quarto amarelo xixi.Senta na cama e leva as mãos à cabeça. Deixou mais um texto pelo meio pra cortar o cabelo. Disse: corte desordenado pra que assim seja o ajeitado. Bagunça na cabeça. Precisa de um abraço. Será que foi enganado por um amor de eternidade? Passado. Tira a roupa sem pressa, peça por peça, sol a pino e sente o …

Me conto. Tome com.

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Esqueci meu endereço. Esqueci. Meu endereço é onde você me encontra, e, você me encontra em quem me ama. Gosto do sorriso canoinha, tão simplesinho quanto sumo. Canoinha que navega nos mares da face sendo empurrada pelos ares de um disfarce tão convincente pra mim. Você é um disfarce. Eu não sei como você reage se eu morder seu braço, tampouco se há um pula-pula na sua sala e um coqueiro no quarto: você é surpresa. A parte que eu vejo é parte menor, objeto social relacional, digamos que instrumento para envolver e poder se deixar conhecer na medida exata. Cheiro. Ah! Como gosto do aroma que é bom, que é doce – mas não doce ao exalar, e sim por ser sensível, miúdo, levemente inebriante. O perfume, ou seu plural, deve ser sobre tudo uma espécie de “espião desastrado”: cauteloso pelo ar, tentando ser imperceptível, mas cometendo a conveniente e agradável gafe de se deixar perceber. Cores. Agrada-me o roxo, o vermelho, o preto, o branco, o róseo; o equilíbrio da cor com o indivíduo é dete…

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

(Vinícius de Moraes)