Natal


Esse tempo toma a face de criança esperançosa que crê num Papai Noel passível de encontrar e trazer o presente imenso que tanto se deseja, e, certamente a árvore belamente enfeitada na sala de estar, faz o papel de incitar toda manhã a expectativa. Não sei se tudo isso é uma estória para o consumismo desenfreado que se afigura, mas eu me lembro que adoraria de todo o coração, nos meus dias de meninice, ver o velhinho depositando sob a árvore de natal a resposta da minha pura vontade de ser feliz independentemente do restante do mundo, realimentando minha certeza de que ainda poderia voar e lançar tiros lasers pelos dedos como nos desenhos, ou ser um super-herói a cavalo com uma capa bem bonita ajudando pessoas em apuros. Essa é a essência.
Mas às vezes, por mais que as ilusões sejam visitadas e correspondidas, você não consegue crer nos seus sonhos infantis, então os reconstrói, de uma forma menos fantasiosa e mais real. Acontece que o desejo de ser herói permanece, a vontade de ganhar o universo é latente, e você se fascina na imensidão do Tudo que te faz tão pequeno, quer guardá-lo no bolso, levar pra casa e colocá-lo sobre a escrivaninha de forma que possa descrevê-lo como um Senhor dos senhores. Não dá. Eu estou nos braços desse Tudo, sendo embalado bem de leve pra dormir sem perceber, acordar e ir correndo ser presenteado. Não dá.
O menino, que tampouco o é, cavalga com sua capa ao vento e sua espada na cintura, certo de estar com uma proteção impenetrável, de guiar-se pelo caminho correto, vai cheio de medos e angústias, mas não se acovarda quando o oportuno momento se apresenta.
O Barba Branca tem dessas coisas, de fantasia e realidade, esperança e compaixão, esse aroma meio humano. “Sinta o espírito natalino” diria o personagem do filme americano passando em TV aberta às quatro horas da tarde. O importante é que não faleça n’alma os construtores do sorriso, o menino, o herói, o médico e por fim a aposta, é no descompasso que as coisas andam, na adversidade que enobrecem e no inesperado que se embelezam.
O Natal tem ares úmidos, um passarinho cantando, o friozinho rasteiro, breve, e o cheiro do adeus com afagos e abraços. Mas, tudo se atenua, os crimes dessa época nem são tão graves, são fatalidades do sentir, da última janta juntos, nem a tristeza é de tamanha malvadeza que não busque animar ao outro, nem o presente, ou a falta dele, àqueles que ceiam com pratos de pobreza, toma dimensões tão catastróficas que não encontre consolo no nascimento do tal Cristo na manjedoura.
O Amor é gratuito, é o brinde da chupeta.

Feliz Natal!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O déspota solitário de Tallinn

Sal