Às Crianças do Planeta Besouro


Ele vende sonhos, todas as tardes por enquanto, mas depois será nos dois turnos diurnos. Nesse tempo veio a perceber que as pessoas não vivem COM pessoas, mas apenas TRATAM com pessoas, percebeu também que os mais desprovidos de recursos financeiros são os donos do paraíso e que as crianças ficam cada vez mais cedo retraídas e limitadas, são temerosas de falarem algo que não devem, de pensarem algo que não devem, e, a ele estendiam, sorrindo, uma máscara de falsidade para serem apenas, e apenas, o que devem ser. Há outros que não são tão inertes, privilegiados, aqueles de distúrbio metabólico cerebral ou, especificamente, os com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), estes curados a terapia e princípio ativo Metilfenidato. Mas que bela porcaria, existe um MUNDO inteiro pra ser encontrado e compilado e todos somente importam-se em acrescentar à sua mesquinhez. Povo, o que querem escondidos nessa carapaça camuflada? Libertem, deixe que flua o sabor das coisas, que grite o terror dos dias, deixe que chore e que morra o que se reserva, não temos tempo para indecisos, amedrontados e enfadonhos, não construa mais uma saída alternativa, tire as cartas da manga seu patife, e enfie no seu... Baralho. Parece que o comedido não tem a eficiência do ordenante, as pessoas quando apenas convidadas para algo que não as beneficie diretamente, mas auxilie muito aos outros, sentem um prazer maligno em se negarem. O vendedor de sonhos sente, grosso modo, que muitos destes humanos irmãos são libertinos fingidos, tramadores, incitadores da discórdia e posam como paradigmas da boa conduta, referenciais para morais lições. Poupe-me, pensa o vendedor. Diariamente, quando liberado do oficio de oferecer futuro, ele vai até uma praça que fica próxima, tem wafer ou outra coisa qualquer para comer, enfim não importa. Procura um banco azul, que não encontre os raios de sol do fim da tarde, e ali se senta. Logo à frente dele uma criança é embalada no balanço pelo pai, e quer mais e mais que ele a embale, parece que quer encostar-se ao céu, quer voar e atravessar as nuvens de algodão doce... E ainda, todo o dia, quando faltam exatos dez minutos para as sete horas, um homem sai de sua casa, próxima da praça, e solta seus cães pra que fiquem correndo e perseguindo os automóveis que passam, fuma um cigarro e logo adentra novamente. Semana passada, o vendedor observava as flores em olhar longínquo, percebera, num dado momento, que um senhor que se aproximava, usava uma calça social envelhecida num bege bem claro a qual ele combinava com um tênis cinza e vermelho bem amarrado, para completar usava uma espécie de colete de malha fina cor-de-rosa. O dia era quente, mas há uma fase em que nos preocupamos até em pegar gripe e ele ressabiado ao ver seus cabelos brancos dançarem ao vento, agasalhara-se demasiado. O vendedor pensa na incógnita imensa que é seu futuro, acena leve com a cabeça ao visitante inusitado de seu espaço de paz, levanta-se, pega a pasta e põe-se a andar.



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