Da Luz e Solidão



(Sua vida é sua Estória)

Estávamos eu e ele no banco de trás do carro, sentados um ao lado do outro. A hora já era avançada, o céu da noite era mais cinza do que propriamente negro, não havia Lua tampouco estrelas, o que havia era uma quinta-feira gelada e um carro levando as pessoas para suas casas após uma janta política de esquerdistas.

Naquele momento o automóvel estava estacionado bem no meio de um morro acentuado, os corpos ficavam inclinados para trás o que de certa forma permitia que nos ajeitássemos mais confortavelmente. Ele se chamava Feu, ou pelo menos foi assim que todos os outros chamaram-no, eu era o Tadeu, acho que ele não sabia disso e certamente nem passara pela sua mente guardar o nome deste jovenzinho que pouco acrescentaria à sua vida, por fim, chamava-me mesmo de Mano, é, Mano.

Ele tinha uma face serena e triste, uma barba levemente crescida e esbranquiçada tal qual os cabelos que restavam na sua cabeça, usava um avental branco, pois fora o cozinheiro de um carreteiro esplêndido, levava, ainda, um foco ou lanterna consigo, já que residia em Mato Leitão e para chegar até sua casa teria de percorrer um caminho sem iluminação alguma cercado por um matagal.

O motivo de estarmos ali era que o motorista que nos levava tivera que ver sua esposa incomodada pela demora demasiada do cônjuge. Ficamos eu e Feu ali, confesso, nunca havia vivido um silêncio tão completo quanto o que existia entre nós naquele momento, é inenarrável, qualquer palavra que se pronunciava ricocheteava funda nos ouvidos, penetrava seca no coração.

- É... Mulher é foda – digo, tentando trincar a atmosfera tão exata.

Ele balança a cabeça de leve olha para a calçada pelo vidro fechado, logo volta-se novamente para mim e balbucia numa conclusão profunda e incomoda:

- Mano, mulher é só problema...

Eu dou uma risada e concordo percebendo que ele não encontrara a graça da própria colocação, complementa na sua voz experiente e ecoante naquele ambiente.

- Não... É sério mesmo! As mulheres nunca estão contentes, você vai dar tudo que puder e elas vão querer mais e mais. Mulher é bom no momento, é melhor ficar sozinho, se precisar vá à zona e pague, nem que você precise ir três vezes por semana, mas vai sair mais barato que sustentar uma mulher, assim...

Conforme ele falava as coisas ficavam borbulhantes em mim, afinal eu estou num momento que minhas decisões vão moldar todo o meu futuro, e pensar isso, aliás, está me deixando realmente revoltado, sim eu sei, um vacilo ou uma escolha em falso e penderão lágrimas pela gravidade na face daqueles que amo. Olho pra frente sem poder evitar. Talvez ele pensasse que estivesse dando a oportunidade de eu escolher o não convencional, o teoricamente certo, lembrei que havia dito a uma amada certa vez que “Somos naturalmente egoístas e precisamos disso para que nos sintamos bem. A felicidade, afinal, é quando nosso egoísmo afeta o menor número de pessoas possível”. Continuava ele, em um falar pausado:

- Olha, eu hoje moro sozinho e isolado no meio do mato, minha esposa mora aqui em Lajeado com duas casas que eu deixei que ficasse com ela, meus filhos nunca vão me visitar, nunca, meus netos também não, – deixou o silêncio do automóvel crescer sobre a conversa por um segundo, enchera os olhos d’água e desviara - a aposentadoria, Mano, mal da pra viver, mas eu gosto lá do meu cantinho...

Percebendo o quão “real” estava o momento e sem entender ao certo por que eu tinha sido escolhido para ser conhecedor daqueles fatos perturbadores, tentei atenuar com aqueles ditos de praxe que põe fim a conversas emocionais-confessionais.

- Pois é, mas o importante é ser feliz, né? Vivendo da forma que se gosta...

Preferiu não findar.

- Pra ti vê, a minha alegria é plantar e colhe meu feijão e minhas coisinhas lá e assistir tevê, não tem coisa que me faz mais feliz que ficar na frente da tevê, fico ali assistindo e o tempo passa rápido. Só saio de lá assim quando tem que nem hoje, ai eu gosto, por isso até cozinho de graça quando eles ali precisam...

Os olhos dele permaneciam desejosos de lacrimejar, enfim deixei que realmente o silêncio perdurasse, não conseguia mais fingir que tudo que ele me dissera havia sido vão ou passado despercebido. Impossível. Parecia-me que a vida daquele senhor era uma espera, o aguardar do dia em que a morte visitá-lo-ia nas vestes usuais, seu manto preto, o rosto esfumaçado e a foice na mão direita, talvez acompanhada dos demônios e fantasmas do passado ou de perfeitos anjos de sabonete, só ele ficaria sabendo e creio que não me contaria isso nunca. Toda uma vida que fora norteada por escolhas erradas, dizia “só agora, Mano, com sessenta e dois anos eu sou feliz”, ele era feliz nessa espera despojada e só, não cabe julgar-me se ínfima demais a significância do seu “ser feliz”, ou se outra vez ele pegara o desvio incorreto, por certo o caminho era sinuoso, e isso me bastava.

Ele desembarca do carro no acostamento da rodovia, já havíamos chegado à sua casa. Acendera sua lanterna e seguiu, permanecemos observando-o até que o sinal de sua luz sumisse no mato que adentrara.

(Do dia 16 para 17 de Outubro de 2008)


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