Breathe


(Respirar)

Meu amor, chove por aqui. Talvez ai onde você esteja, a duzentos metros de mim, tenha uma lua exuberante no céu a espera do silêncio de observação dos enamorados. Mas a questão é que aqui as gotículas despencam em gritos cortantes, aqui os trovões são desafiadores e os raios caem centenas de vezes milimetricamente num mesmo ponto, bem próximo do meu coração.. Meu amor, fechei-o, na verdade tranquei-o com uma armadura férrica pois senão desmanchar-se-ia com as rajadas de vento frias que me colocam trêmulo por aqui, sei que não desejas isto de forma alguma, mas não tive escolha. Quando me põem no âmbito da guerra eu não fujo, mas tampouco posso guerrear de todo ser, eu não posso magoar meu ofensor, eu não posso contestar seu esforço por mim, ele me fere com a mesma espada que me protege. Eu sou insano liberto, canarinho de gaiola que canta, sou alvo da cobiça à exclusividade inalcançável. Pobre de mim, mas não tenha pena, tenha é força no chute que você vai desferir no meu estômago pra ver se caio ao chão definitivo, pra que eu pare de ser calmo e comedido, pra que eu me erga na solidão da minha revolta com a face suja do esterco de cobardia da minha vida e aprenda a tarefa difícil de magoar àqueles que amo sem culpar-me. Aqui existe uma vida, não um bonequinho que usa roupas bonitinhas, chora, sangra e que fica ao dispor da rotina do brincar de casinha, minha ação, minha escolha, meu pensamento, no fim, fica somente aos leitores, sou o personagem de minha própria vivência personificado na minha própria obra melhorada, pois só o leitor sabe mais que um amigo, ainda que eu não acredite que haja algum que não se enquadre em ambas as classificações. Mas meu amor, não me odeie, não pelas atitudes que não provém de mim, este eu que você constrói não é aquele que conhece, espero que consiga ver algo a mais em meus olhos que simplesmente o castanho escuro.
Ainda e ainda e ainda chove por aqui, não há estrelas nem luzes dançantes, nem músicas animadas, há apenas olhos acirrados, vozes definidas e altas que empreendem na construção do ar atmosférico de toneladas, um homem meio bêbado e cães que perturbam ainda mais. Eu tenho um quarto escuro, centenas de palavras expurgando pela ponta dos meus dedos com cutículas mal feitas e um ursinho panda me observando, meu paraíso particular, meu tesouro do próprio aroma, tenho a paz da brisa que penetra pelas frestas da janela e empurra meu pedido de desculpas na forma de sussurro a ti.. Escute meu amor! Você pode me ouvir? Vem pra que possamos nos esconder abraçados debaixo de um telhado qualquer, vem antes que eu coloque minha maquilagem de sobrevivência, por favor, aproveita minha fraqueza..
Ah! Meu amor, por aqui as tempestades são silenciosas, só quando caem folhas de coqueiro é que há algum barulho, porque senão tudo é Marola além do momento de ápice do incontestável, a Onda gigante. Nesta região o bom tempo é nublado, o sol raramente resplandece com verdade nos corações, meu suspiro profundo já é hábito, sabe aquele? É o inflar dos pulmões para oxigenar o cérebro e manter meu processo de crer que tudo há de melhorar segundo o agir do Superior, é minha busca de perdurar em mim. Esta noite tombo a cabeça no travesseiro, pra dormir, esta noite decepo minha cabeça e jogo pela ladeira, pra dormir, esta noite estrago minha dor com a morfina da pálpebra pesada, pra dormir, esta noite que chove, que venta, troveja, enfadonha. Meu amor, eu quero dormir, ao teu lado.


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