Medicina Cardiológica Subjetiva Aplicada – Pós fase paterna.



Patologia Congênita ou Doença de Nascença

Esta é especificamente um “furo” entre as câmaras superiores do coração, átrios, que toda criança tem no seu período embrionário e fecha-se no primeiro suspiro de vida, neste caso não se fechou. Esse “furo” de 0,8 cm provoca a mistura do sangue oxigenado com o não oxigenado causando uma sobrecarga na funcionalidade pulmonar já que o esforço é maior para suprir a necessidade de oxigênio no organismo. Prótese é viável mas as chances de rejeição são altas, o caminho mais adequado a ver pelo ângulo da jovialidade da paciente é uma cirurgia corretiva. No período de um mês ela estará apta para realizar suas atividades com normalidade.



Estrada de chão no desvio de pedágio, mais interessante que o percurso normal, no ar a poeira vermelha dos automóveis que passam velozes e o estalido das pedras na parte inferior da lataria, dispensável este comentário já que aquela altura eu nem mais prestava atenção a detalhes como tais.

A família reunida acontece nos momentos que não há outra opção, uma doença grave ou uma possibilidade de morte, desta vez ambas as razões, mas ingratidão seria apavorar-se diante disto ou dizer que há ausência de amor naquelas relações invariavelmente engraçadas, atritosas e afetivas ao mesmo tempo. Seguíamos, o motorista paternal não superava os 80 km/h para preservar seu tesouro familiar prevenindo-se da irresponsabilidade alheia, ao lado o filho doido, nem um pouco doido, sustentáculo da harmonia, atrás a mãe e a filha, complexas, desconfiadas e protetoras. Assim anda o barco, na tempestade não enfrenta turbulência dos passageiros.

Tocava a canção que inspira poesia, aliás, eu tive a nostálgica idéia de colocar um CD de lembranças como fundo musical de toda a viagem o que não me permitiu evitar devaneios românticos banhados por um lacrimejar disfarçado e breve, enfim, persistente sentimento, mas não permita que a razão do fato conheça-o.

Depois dos estampidos auditivos pela mudança de pressão e dos tremores de frio da região alta, chegamos ao destino serrano, complementado pelo almoço tradicionalmente farto, ainda que em plena segunda-feira, e pelo acolhimento gentil dos familiares (e cães) devido a falta de visitas por anos a fio.

Cumprimentar a Nona, a mais imprescindível tarefa, mal conseguia mover-se nas próprias pernas ou ter força pra falar e alimentar-se, danos de um coágulo cerebral não tratado imediatamente, a causa da não recuperação plena e efetiva? Subestimar a força do pensamento!

Os consultórios, leitor, são todos iguais, os de cardiologia especialmente são brancos ou de tonalidade clara, na parede há sempre um quadro reproduzindo anatomicamente um coração, e na sala de espera vários idosos normalmente tratando de resmungar com o que senta ao seu lado sobre a demora do atendimento, mas a simpatia da secretária. O consultório do Dr. Carlos de pouca fala não fugia a regra, branco, logo na entrada um local para colocar os guarda-chuvas molhados no formato de um guarda-chuva, o ar quente, quase sufocante, em contraste com a atmosfera fria do exterior e a demora habitual.

A minha frente sentaram-se meu pai e minha irmã, ao lado deles duas mulheres, uma que insistentemente desviava o canto dos olhos na direção do meu velho que tampouco havia lhe notado a presença, uma outra na ponta debaixo cochichava suas aventuras sexuais como a não perceber que estava na presença de alguém um pouco mais jovem e por conseqüência com o aparelho auditivo menos afetado. O único fato que quebrava aquela rotina de cheiro de naftalina e roupas esportivas fora de moda para fazer esteira era a presença da minha irmã nos ares de seus vinte e poucos anos e o acompanhamento de mais três pessoas.

Entramos no consultório, antes disso meu pai dizia: “deixa que entra o moleque com ela, que entende alguma coisa, não adianta entra uns burro”, eu ria e sabia que não faria diferença minha presença, pois sabia exatamente o que o médico diria, ou melhor, isso se o médico dissesse algo, o que ele não fez, limitou-se a dar um exame para análise da falta ou não de vitaminas e receitou aspirinas dia sim dia não. Saímos e fomos tomar um café preto (sem açúcar pra mim, por favor) no escritório da tia.

Nona deixe-me massageá-la, “sabia que a medicina oriental trata várias doenças por pontos específicos nos pés, e tem uma coisa, esse líquido é muito bom, mas vai lhe deixar a pele ressecada, talvez uma pomada tenha um efeito mais saudável”, ela ouvia enquanto massageava-lhe, mas logo pediu para deitar-se e descansar. “Ma Nona, porco diu! Tu tem minha formatura e da minha irmã nesse fim de ano, a festa vai se grande e tu vai te que ta lá, caminhando! Te inventa de piora véia!” ela concordava emocionada, beijei-lhe a face e fui-me, espero vê-la novamente Marcona, e que eu não tenha de tão cedo usar qualquer artifício advocatício para tratar da herança dos hectares familiares a perder de vista.

Voltemos pra casa, estejam bem nas suas de fogão a lenha. Até dia qualquer Serranos.



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