Cinco fixas uma garrafa e dois Copos




Na verdade eu não recusaria o convite de um amigo para uma cerveja às 22 horas depois de um dia cansativo, pigmentado, no entardecer, por discutições de cunho social orientadas pelo visionário da religião católica não ortodoxa. Fomos a um bar que anunciava a transmição de jogos do Grenal com uma faixa tremendamente visível dependurada na grade de entrada, mania gaúcha da rivalidade esportiva. Logo adentramos no antro desconhecido e nos aproximamos do balcão de mogno lustroso, cumprimento um amigo que sugava adolescente seu cigarro, também eu, sem demora completei meu copo, dispensando colarinho pra começo.

O líquido amarelado e amargo terminara breve sob a luz verde daquele balcão e a secura dos meus lábios, meu acompanhante comprara três fichas e fora jogar sinuca com um homem sem o braço esquerdo, equilíbrio considerável entre ambos já que 'habilidade' não era uma palavra oportuna. Observava, pedi a segunda garrafa e fui convidado a testar o “choque de bolas” com outra, branca, impulsionada, agressiva ou suavemente, por um taco. Perceba as mensagens subliminares quando descrito a forma de jogar... Por fim, derrota! Perdi para o acompanhante e para o homem sem braço, aliás, este chegou a me dar dicas por diversas vezes, imagine a cena, minimamente engraçado, não? E mais vergonhoso para mim eram os garotos da minha idade, senão ainda mais jovens, jogando esplendidamente na mesa ao lado, exibindo tacadas certeiras que faziam as bolas quicarem de borda a borda da mesa verdemente aveludada até descansarem nos buracos das extremidades, garotos classe alta inclusive para ócio, treinam noites a fio esse exercício inútil.

Era quarta-feira em seus primeiros minutos, o olfato não me permitiu ignorar o aroma fétido proveniente do meu copo, pensei nas milhares de bocas que ocuparam-no enquanto expeliam gás carbônico concentrado, quantas meninas mulheres precoces, meninos inconseqüentes, bêbados sem automóvel, tantos que compartilharam o mesmo copo sem nem ao menos saberem das feições ou traumas uns dos outros, tantas bocas encostando na mesma borda e sem contar a mesma história, não usaram do mesmo batom e nem tiveram a mesma sorte. Quem o próximo a usar este recipiente alcoólico com resquício da minha saliva, da minha palavra de insanidade meio verdade, quem irá beijar minha boca no passado?

Devaneios, mania inconveniente a minha. “Vai apanhá da muié!” eu ouvi vindo do interior do bar quando já íamos embora, era este, suponho, um dos motivos de estarmos ali: meu parceiro de “snooker” brigara com a esposa. Fui concluindo no passar das horas, mas não tive audácia de atordoá-lo com minhas orientações psicológicas amadoras, nem minhas conclusões filosóficas de proporções inconseqüentes, que provavelmente fazem os Grandes Pensadores se debaterem, com aranhas e teias, nos seus caixões apertados. Ao celular ele respondia “já chego em casa amor..”.

Voltando pra casa eu deixo escapar um pensamento, "Eu gosto da noite" - digo. Deixo o fato pairando desapercebido no ar e permaneço refletindo. Eu gosto de ver as fofoqueiras apenas espiando pela fresta de suas janelas ao latir dos cães, amedrontadas pela idéia de que algum “vagabundo drogado”, como costumam chamar, venha arruinar o empenho de uma vida aplicado a bens furtáveis. Gosto de ver as linhas longínquas feita pela luz dos postes alinhados e as estrelas fazendo companhia à Lua cheia. No noturno o horrendo fica atenuado, os mendigos não vagam tristonhos pelas ruas, mas adormecem como que pela última vez, pode-se conversar em sussurros e dar maior sensibilidade aos demais sentidos..

Eu gosto da noite; de snooker.

"Vá pela sombra, amigo!"


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