Do ato de Escrever



Escrever é uma necessidade fisiológica, como ir aos pés, lembro do meu pai com essa expressão substitutiva do defecar. Faz frio por aqui, frente a essa tela; interessante que as letras surgem sem medo nesse papel protótipo branco e hostil, assim, como se tivessem ensaiado uma dança de acasalamento, vão aglomerando-se aos poucos na parte superior e conforme as batidas do coração do poeta crônico e cronista, elas aumentam no volume, e mais, e mais, até que um parágrafo exploda e faz o último ponto na costura do primeiro retalho, que era a primordial idéia libertina.
Agora as coisas mudaram, então não mais livre, ali está, presa no papel e amarrada ao corpo do texto, toda a vivência louca de associação dissociada com dizeres e visões sem nexo e tortas, é passado. Pense por hora, santo deve ser o ponto, ou poderoso devo dizer? Discussão alguma vai além de sua barreira baixa e tênue, e na tentativa do além, tropeças e cai.

O incrível, porém, em escrever, é o dizer tão moldado e esbelto, curvilíneo como o corpo da mais bela mulher desconhecida, posto que é dinâmico, ou estático se necessário, é prazer em carne de letras, luxúria tragável e solúvel, dependência aos fracos como eu, ponto exato do calcanhar de Aquiles, a fragilidade humana: tudo que é bom.

Pois desde ontem me entorpeci, ando dopado pelas ruas, e quando acordo meu cabelo já esta comprido e eu vou meio manco até o banheiro, uma cara de sono pra decidir que vamos pra vida de pijama, porque quando se ama, bom, boa sorte! Ta, e onde entra toda aquela história das letras, parágrafos, frases e devaneios pra variar? Entra na curiosidade do que ainda não vi, ainda não vivi, no que ainda deve ser escrito certa noite fria de junho ou setembro.


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