Um tapete circular alaranjado, deitado com os braços sob a cabeça olhando para o alto. A pequena aranha sobe e desce acompanhando o movimento do meu diafragma que comprime e relaxa os pulmões. Quando alacançava uma altura suficiente despendia do alto com velocidade girando verticalmente na própria teia, parecia brincar, atriz circense. Claro, falta-lhe alguns apetrechos e enfeites pelo corpo, entretanto certamente possui grande habilidade. Mas o que aconteceu? O aracnídeo parou na metade do trajeto, aparentemente dispensando o exercício de tecer para me observar por alguns instantes. Também lê pensamentos? Aranhazinha audaciosa! Mostro-lhe a língua e ela sobe exasperadamente sua teia até o orifício de origem, quer abrigo das anormalidades do mundo. Dou uma gargalhada enquanto agito o inseticida.
"Eu sou cada segundo da minha vida, uma história presente."
Interior, bem escondido no meio das árvores que fazem cócegas no céu. A ponte sobrevive arqueada sobre o riacho, de tijolos firmes nessa função de tornar travessias possíveis, de ser o vínculo das coisas naturalmente distantes. Uma pequena cachoeira de água límpida e gelada, sento-me nas pedras deixando os pés submersos balançando naquele movimento infinito da correnteza. Mário Quintana afirmava haver tristeza nos rios por não poderem parar, são contínuos, não retornam para os lugares por onde passam. Eu paro, retrocedo, relembro e revivo. Estou quieta, imóvel, o ar é mais leve e meus membros amolecem. Aqui eu cresci, aqui tive meu primeiro amor e chorei no quarto com a porta trancada quando ele acabou, fui castigada pelos meus pais e me escondi no mato até que a raiva passasse. Este lugar é meu templo e hoje sou mulher, e sou bonita, sei seduzir, convencer, trabalho e faço essas coisas normais e mesquinhas que obrigam o tempo passar mais depressa. Lamento por isso, pois preciso construir meu castelo de emoções, quero o homem certo, ter um cachorro, sair a passeio nos finais de semana, cantar em voz alta no carro, formar-me com honras e ter esse negócio de felicidade que a gente não encontra na quitanda. Lembro do sol refletindo nas folhas cheias de orvalho e do cheiro de café passado da minha mãe que invadia toda casa enquanto eu arrumava as coisas, porque estudar era meu compromisso e brincar minha ambição. Suspiro e engulo uma vontade que poderia ser de chorar, acho que não, saudades talvez. Sei que permanece a essência em meu âmago, cultivo-a carinhosamente, a fim de que transpareça nos meus olhos. Valorizo os sorrisos sinceros que brotam da minha alma inspirados naquela que se divertia de esconde-esconde por aqui. Esse cantinho de mundo tem um quê de simplicidade único que riqueza alguma reproduziria, amigos, amores, sabores de aventura. Em tupi-guarani se denomina “Clareira na Mata”, cinqüenta mil homens, mulheres e crianças e uma infinidade de paisagens bonitas. As cavernas fazem caretas e o povo conta de espíritos que apagam as velas, dos tesouros escondidos pelos jesuítas e a igreja ainda está no meio da cidade com seus sinos centenários a anunciar chegadas e partidas.
Vou tirar umas férias dos meus compromissos de ócio. Não escrevo mais por algum tempo, nem penso ou ajo para impressionar. Existem momentos exigindo o "mais ou menos" naquilo que deveria ser primordial, a fim de que uma segunda realidade fique em primeiro plano. Se tiver que fazer algo na sua vida, faça por si e para si mesmo. Sim, há alguém avaliando o que e como faz. Dane-se. O prejuízo ou o benefício virá exclusivamente para sua caixa de correio. Faça o melhor. Toda a manhã eu desejo que meu dia termine sendo o mais excelente que eu puder viver, que cada conversa seja a mais fascinante e que cada sorriso seja o mais lindo e verdadeiro.
Quer me conquistar? Sorria. Dê ao seu sorriso proporções maiores que às suas reclamações, ainda que eu sempre queira ouvi-las. Entregue-se à sensação. Você sabe quais ruas eu passo, os locais onde paro, será difícil me encontrar? Chame e eu vou com pressa. Preciso descansar um pouco, tenho uma impressão concisa que estou desgastado pelo trabalho e compromissos extraordinários. Ando nervoso, perturbado, perco a concentração e sinto dores na nuca. Vontade de comer pudim. Saudade dos meus amigos. Preciso de carinho.
Quer me conquistar? Abrace-me. Faça com que os corações sintam-se mutuamente. Feche os olhos e entregue toda ternura que conseguir. Esqueça o mundo acontecendo a sua volta, o tempo, os outros. É de graça e vale muito para qualquer um que receba. As coisas precisam mudar. Vou velejar para uma praia maior. A propósito, eu acredito em alguma coisa mística, poderosa e subjetiva que mora nas pessoas. Um poder intrínseco e normalmente desconhecido, a resposta, o guia, o sinal. Está em você, precisa encontrá-lo e permitir que se manifeste. Wicca.
Chove agora, amanhã alaga e depois é sol na cara. Despido, inteligente e corrompido faço o tope como uma criança que ainda não aprendeu amarrar o próprio calçado. De ruim não passa, o além é descaso com a própria sorte. Homens e mulheres, respeito, amor, indecência, verdade e sempre a história fica pela metade, e sempre alguém interpreta errado e o Sempre é uma contingência de desocupados. Acordo e ligo o rádio, ensurdeço minha seriedade. Eu não sou réu, sou rato, mas se por pecados maiores não me mato, sobrevivo desolado o tempo da compreensão. Debruce em mim só a expectativa da mudança. A partir daqui não respondo ciente, pra que ficar perguntando? E sim, adoro biscoitos de amendoim.
Minhas mãos são feitas disso que é carne. São nada. Posso ver através delas, juro que sim. Tentei perceber minha face com meus próprios olhos, seus ângulos e sombreamentos, a face material e não o reflexo no espelho do banheiro. Não pude. Não posso. Não tenho.
Pegue a navalha, o vinho
Deprima os ursos de pelúcia
E faça um sanduíche de ervilha.
Suba a meia-calça
E desça até a garagem
Entre no carro e
Desembarque do juízo.
Óculos escuros ficam bem à noite
Seus saltos assaltam a timidez.
Você vai engolir alguém hoje,
Cuspir na cara da pior cantada?
Ah, deflorar meus melhores acordes
Têm baratas no meu armário
Traça nos seus fichários.
Goza um desastre de picos dissonantes
Dança em mim,
Me traça que sou barato.
Agora foi. Parece-me que não consigo encontrar Alguém, e, a essa altura, também não sei dividir mais nada, nem a cama, nem o controle remoto ou o espaço do meu apartamento. Perdi a paciência para ser cobrado, fazer planos a dois e explicar o viés de meus desejos maiores. Cultivo alguns temperos na varanda, regando-os ao entardecer, deixo alguns cactos pequenos espalhados pela casa como objetos de decoração, tomo banhos longos, faço comidas exóticas, falo só e assisto a filmes proibidos pela noite.
Você me deixou com preguiça de ser
normal. Que sinta desapego por mim.
Sabe, tô me sentindo meio coca-cola hoje.
Percebeu como todo mundo é fascinado por
algo ilimitado, ardente e molhado?
Tenho sido uma imitação do que
sempre quis ser. Olhe eu ali:
no jornal, na televisão, em você.
Na gaveta, debaixo da poeira e
pelas prateleiras se amontoam os
livros, vícios de fuga-esperança.
Tenho sido Bandido. Você se agrada
do Mocinho?
Nem acredito em tudo que ouço
Não dou crédito pra tudo que falo
Agora é tudo bobagem, faço canções
de desencanto depois das dezenove
na garagem do Pedro e da Camila.
sol menor é Dó maior.
Minha saliva tem gosto de sabão,
espumo de raiva. Quando lavo louça
quebro os pratos e sempre sou
desastre na vida de alguém.
Não, não é de guarda-chuva,
eu sempre esqueço me roubam ou perco.
Estendo-me ao longo de todo o tapete
e lanço pelos ares cartas do
baralho. Sempre sou desastre
na vida de alguém.
Tenho pressa, mas não excedo nem me conformo. Canto e quase grito, pareço sabiá inaugurando o amanhecer. Não há volume que me satisfaça, eu quero que todos me ouçam, eu tenho algo pra dizer, vocês precisam se arrepiar, enlouquecer, berrar com toda a verdade da alma e mentira do corpo. Tudo é amarelo do sol que arde até que a tempestade arranque as roupas do varal, levante o vestido das beatas, sacuda o pólen nas flores e eu só sei fazer um passo de dança. Qualquer sensação sempre será única por ser só sua. Alguém sempre vai: morto, fugindo ou abandonando. Logo depois aparece outro: engraçado, chato ou apaixonado. Você lamenta que tudo vai mudar e eu espero que nunca mais seja a mesma. Pode chorar por amor, tudo vai dar certo quando a fronha secar. Quem nunca o fez perdeu uma vida inteira. Vem, desce as escadas correndo que lhe espero com um sorriso bem grande na face, vou ser seu amigo ao som de Tim Maia amar por inteiro.
Atesto que minha testa segura da sobrancelha o peso de seus - que são meus - pêlos. Se me escapa o controle e por descuido escorre, um tanto de espuma em direção ao olho, sei que me salvas à vista ou a prazo, é fato que lhe pago mas não aparo taturanas tais. Se inclina quando indíguino e fecha na raiva despertada, é ainda sugestiva à libido, quando desce junto a pálpebra em flertes enamorados. Salve pestanas, celhos que vivem na sombra. Que vidas têm?
Que eu me faça em bronze e que de mim te tornes estátua de reverência à beleza infinita que resplandece em ti, não quero privar-me da tua presença sob circunstância alguma. Sinto tua falta. Sinto sem querer e minto que não. Quando vejo já estou imaginando o que nós ainda não fomos, qual lugar irias preferir...
- Sorvete com cobertura?
- Moço!
- Oi?!
- Com cobertura, o sorvete? (...)
Logo chego em casa, a cama me prende e eu me perco num caminhão de idiotices escritas inspiradas em anotações de espontaneidade dos meus dizeres mais sinceros. Como eu sou sem graça, penso e confirmam. Não tenho marteladas certeiras, entorto sempre os pregos. Faço o quê? Busco o novo pintado com velhas cores, assusto-me com as perdas que ainda não tive e passo o dia inteiro na janela engolindo gomos de choro.
Aí te manifestas. Sente saudade? Se lavar ela encolhe, é saudade de liquidação? Eu compro a tua. Como eu sou sem graça, não? Sentei no corredor, da forma que falei que costumava fazer, ele é sempre meio escuro, encolhi as pernas e permaneci. Eu permaneço. Sem graças.
Sou um desses que escreve, e, como tantos outros, vou pernoitando nos albergues da poesia. Vivo criando obras que são filhos rebeldes viciados pelas sensações do mundo. Vem comigo, desvenda meu segredo.
“Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas." (Fernando Pessoa)
"Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro." (Mário Quintana)